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Coluna de hoje – Retrato sem Maquiagem

Todo mundo sabe que a F1, graças ao modus operandi de Bernie Ecclestone, representa como alegoria boa parte daquilo que se considera abjeto no mundo dos negócios. Lucratividade acima de tudo, formação de monopólio, falta de transparência e até cooperação com regimes e governos totalitários e/ou corruptos. Em resumo, a F1 é uma bosta.

O problema é que a gente gosta dessa bosta. E dói a alma ver que nada está sendo feito de prático para impedir a realização do GP do Bahrein, daqui a duas semanas. O país asiático, encravado no Golfo Pérsico, enfrenta uma convulsão social há mais de um ano. A corrida de 2011 foi cancelada, mas para 2012 a FOM e a FIA tentam vender um cenário de mar de tranquilidade. Não é, tanto que na última sexta um protestante foi assassinado enquanto pedia nas ruas o cancelamento da corrida.

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Coluna de hoje – Perdendo o fôlego (e a cabeça)

A temporada de 2012 começa perigosa para a Red Bull. Bicampeã de pilotos e construtores, dominante na Fórmula 1 dos últimos anos, a equipe austríaca não parece ter o mesmo fôlego de antes. Olhando para a classificação do campeonato, os 42 pontos marcados não chegam a ser ruins, nem é pior do que o início de temporada de 2010, quando o time fez apenas 18 pontos em duas corridas e mesmo assim terminou o ano campeão. Porém, diferentemente daquela temporada, este ano a equipe não consegue andar na frente. Se há duas temporadas os rubrotaurinos dominavam, mas tinham problemas de resistência, hoje a situação é um pouco mais difícil. Resolver os problemas de um carro rápido que quebra é bem mais fácil que fazer um carro mais lento andar.

A edição da semana passada da revista inglesa ‘Autosport’ faz uma reveladora avaliação de performance dos carros de 2012. Comparando os melhores tempos de cada carro durante o GP da Austrália com os obtidos no ano passado, conclui-se que a Red Bull está cerca de 1,2% mais lenta. Já a McLaren está 0,7% mais rápida (para efeito de curiosidade, a Ferrari perdeu 1,5% e quem mais evoluiu foi a Williams, com 1,5% de melhora). Este cenário matemático demonstra bem a realidade: os carros de Adrian Newey já não são mais os melhores do grid. São rápidos, mas não dominam mais. Os resultados também falam por si.

Para se ter uma ideia, a Red Bull só liderou uma volta das 114 da temporada até aqui, num gap entre pit-stops no GP da Austrália. Ano passado, tinha liderado 109 das mesmas 114, e em 2010, 58 de 107. No grid, não conseguiu nenhuma primeira fila. Nos últimos dois anos, a Red Bull só tinha deixado de estar presente na primeira fila de uma corrida em uma ocasião: no GP da Itália de 2010. Em todas as demais 37 provas lá estava um touro vermelho, senão na pole, na segunda posição. Em 2012, no entanto, não conseguiu posição melhor do que o quarto lugar em duas provas.

Sebastian Vettel obteve um belo segundo lugar no GP da Austrália, mas esteve bem distante do pódio na Malásia. Bateu com Karthikeyan e teve um pneu furado, é verdade, mas não chegaria entre os três primeiros da mesma forma, pois era apenas um discreto quarto colocado até o acidente. Mark Webber, que chegou em quarto e repetiu a posição da Austrália, não deu trabalho para ninguém na corrida. Um touro manso.

Não é o fim do mundo, pois o carro parece próximo da McLaren. Não é uma desgraça como o F2012 da Ferrari, pode vencer com alguma regularidade, mas sem nenhuma facilidade. É preciso quebrar a barreira da vitória, mas como a Red Bull não está mais acostumada a ficar longe da ponta, um começo de campeonato ruim assim abala a confiança do time. A reação extremada de Vettel ao final da corrida, chamando injustamente Karthikeyan de idiota, escancara este cenário. Sempre equilibrado e de boa paz, o bicampeão revelou seu lado irritadiço e intempestuoso. Não é assim que conseguirá uma reação rápida. Ainda que tenha os talentos de Newey nas pranchetas e de Vettel ao volante, talvez seja preciso mais calma do que tomar um energético para voltar a vencer.

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Mimimi – parte 2

O leitor Gustavo enviou nos comentários do post anterior o link para um vídeo muito interessante. É a sequência pós-corrida da BBC, na qual Jake Humphrey e David Coulthard analisam o acidente entre Sebastian Vettel e Narain Kathikeyan, mostrando imagens da câmera onboard do alemão e contendo ainda entrevistas com os dois pilotos. Você pode vê-lo aqui.

Dela, pode-se depreender algumas coisas:

1) Mudei de opinião com relação à atribuição de culpa. Se antes achava que Vettel tinha errado, vendo a câmera onboard, me parece que não houve culpa de ninguém. O alemão faz um traçado correto, mas Karthikeyan sai da pista para dar passagem a Hamilton, pega sujeira e fica com o carro instável. Nisso, escorrega na zebra e volta para o traçado, tocando o pneu traseiro esquerdo da Red Bull.

2) As declarações de Vettel foram muito duras. Ele não insinua que Narain é um idiota, ele afirma: “Nas estradas existem idiotas e aqui parece que também temos um”. É muito forte, uma reação desproporcional ao ocorrido.

3) Karthikeyan esbanja humildade, chegando até a assumir responsabilidade pelo acidente. David Coulthard o interrompe e afirma: “Francamente, não acho que você tenha feito nada de errado. Foi uma daquelas coisas que acontecem em corrida quando as condições são difíceis”.

4) Posto tudo isso, fica claro para mim que Vettel está mesmo sentindo a pressão de não conseguir andar na frente. É um grande piloto, tem tudo para dar a volta por cima, mas está abalado psicologicamente. Este rompante de destempero, bem diferente de sua personalidade habitual, demonstra isso. A fraqueza da Red Bull afetou o Tiãozinho.

5) Quem dera no Brasil tivéssemos uma cobertura pós-corrida assim…

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Mimimi

Sebastian Vettel ficou doido da vida com Narain Karthikeyan após o toque no GP da Malásia. O bicampeão mundial teve um pneu furado e perdeu o quarto lugar, terminando a prova em 11º, fora da zona de pontos. Em entrevista, o alemão esculachou o colega, insinuando que “é um idiota”.

Porém, analisando a manobra, não vejo nada de errado na postura do retardatário indiano. Vettel tomou a curva pelo lado de dentro, fez a ultrapassagem e voltou para o traçado cedo demais, passando com seu pneu traseiro sob a asa dianteira da HRT. Dá para ver o lance aqui. Ele queria que Narain colocasse a HRT no bolso para ele ultrapassar?

O choro de Vettel é puro mimimi. O que é interessante, serve para analisar como alguém que se acostumou a ganhar tudo se comporta em momentos de dificuldade. Por enquanto, mal. Muito mal.

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Começou morno

Desde os tempos de Mario Andretti, Al Unser Jr, Emerson Fittipaldi, Nigel Mansell & cia que a Indy não me cativa. Comecei a acompanhar a categoria em 1988, a vi com regularidade até meados de 1995, depois o interesse foi diminuindo. Sei que houve bons campeonatos depois disso, mas por algum motivo os carrinhos do lado de cá do Atlântico não conseguem prender minha atenção. A cisão Cart x IRL enfraqueceu demais ambas as categorias, que viraram um arremedo de campeonato no começo dos anos 2000.

Sei que a situação vem melhorando e achei que, com os novos e belos carros e com uma cobertura mais intensa da televisão com a chegada de Rubens Barrichello, meu interesse fosse ficar renovado. Comecei a assistir o GP de São Petersburgo bem empolgado, mas não durou muito não. Em algumas voltas a Indy passou a ser, para mim, a mesma de sempre.

Tudo bem, é fato que a Indy melhorou bastante. Mas a corrida numa pista chata e ondulada, quase sem ultrapassagens e com alguns erros de organização que dão um ar quase amador à categoria me fazem desconfiar dela. Essa coisa de bandeiras amarelas longas quando qualquer carro para na pista para que um guincho possa rebocá-lo até os boxes é terrível. Pode ser bom para inserir breaks comerciais, mas é chato pra caramba. Quebra o ritmo, bagunça estratégias, transforma tudo em loteria. Além do mais, é dar muita chance aos pilotos. Morreu o carro? Então que fique pelo caminho. Absurdo, também, permitir que Katherine Legge entrasse na contramão do pit lane, para que não tivesse que dar uma volta inteira atrás do guincho. Gente, contramão nos boxes é muita várzea! Nisso, a categoria perde pontos.

Porém, ela também ganha pontos quando Helio Castroneves conquista uma vitória como a de hoje. Depois do fim da loteria de bandeiras amarelas e pit stops, viu-se na terceira posição e ultrapassou Scott Dixon e JR Hildebrand para assumir a ponta. O final foi bacana, mas a temperatura média da corrida não passou do morno. Com a água que a Indy ferve, não dá nem para fazer chimarrão.

Morna também foi a estreia de Rubens Barrichello. Por mais experiente que seja, é um estreante na categoria, sua equipe é média e isso deve ser levado em consideração. Porém, o 17º lugar foi um tanto abaixo do esperado. Ernesto Viso, um de seus companheiros, foi oitavo. Tony Kanaan era virtualmente o líder entre pit stops quando teve um problema de bateria que o forçou a abandonar. Dos três pilotos da KV, Barrichello foi o mais discreto.

A própria transmissão da TV Bandeirantes deixou clara uma certa decepção. No começo, só se via e só se falava em Rubens Barrichello. Com foco sobre ele durante o hino e preparação para a largada e cortes na transmissão oficial para inserção de câmeras exclusivas para mostrar seu desempenho na pista nas primeiras voltas, ainda que andando 13º lugar, parecia ser um dos protagonistas da corrida. Até que, com cerca de um terço de prova, a produção percebeu que daquele mato não sairia mais coelho e desviou os olhares. Era apenas citado, não havia mais análise detalhada sobre ele, nem mais imagens exclusivas. Foi perceptível: a Bandeirantes esperava mais dele.

Aliás, destaque positivo para a transmissão da Band hoje. Apesar de um primeiro corte absurdo para break comercial (entrou uma vinheta de entrada de transmissão de futebol, dando a impressão de que a Indy havia terminado), manteve a corrida no ar até a última volta, respeitando o telespectador. Outra demonstração de respeito foi a escala de Téo José para a narração, precisa e sem afetações, como deve ser.

Fiquei um pouco decepcionado com a Indy, mas é apenas a primeira de 16 corridas. Há todo um campeonato pela frente e, em pistas que permitam mais ultrapassagens, poderemos ter belos espetáculos. Vale a pena acompanhar.

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Motivos para comemorar

Se algum brasileiro sai da Malásia com motivos para comemorar, é Bruno Senna. Enquanto Felipe Massa se debatia em dificuldades, Bruno fez uma corridaça, a melhor de sua carreira. Marcou pontos e ainda superou seu companheiro Pastor Maldonado. Ganhou moral.

Bruno errou no começo quando escorregou na chuva da primeira volta, bateu na traseira de seu companheiro de equipe e perdeu o bico. Caiu para último, teve que fazer um pit stop a mais, mas ali começou uma belíssima corrida de recuperação. Depois da interrupção e da entrada do Safety Car, com as diferenças anuladas, conseguiu tirar proveito do belo carro que fez a Williams para 2012. Brigou, ultrapassou, foi ganhando posições escalando o pelotão até terminar a corrida na sexta posição, sua melhor classificação até hoje. Foi o único com quatro paradas de box a chegar na zona de pontuação. Não fosse o acidente da largada, poderia ter brigado até pelo quarto lugar.

Os oito pontos marcados superam os cinco conquistados pela equipe em toda a temporada de 2011 e dão um bom alento ao time depois do acidente de Maldonado na Austrália. Ficou claro que a Williams vai brigar mesmo entre os dez primeiros durante o campeonato e que o desempenho no Albert Park não foi exceção. O venezuelano também teria marcado pontos, já que era décimo quando seu motor estourou a poucas voltas do fim.

Se o torcedor brasileiro quer motivos para se orgulhar nesta temporada, que centre suas atenções em Bruno Senna. O carro é competitivo e boas surpresas devem vir por aí.

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Não dá mais

Felipe Massa sempre recebeu da Ferrari um tratamento mais do que justo. A equipe confiou em seu potencial desde jovem, o apoiou nas categorias de base, na F1 deu a ele uma grande oportunidade ao lado de Michael Schumacher, e ele respondeu. Permaneceu na equipe com Kimi Raikkonen, brigou pelo título em duas temporadas, chegou muito perto na segunda, tornou-se um piloto de ponta, vencedor.

Em 2009, com um carro ruim, fazia uma temporada adequada ao nível do carro, até que sofreu aquele grave acidente em Hungaroring. Recuperou-se, a equipe continuou apostando nele, voltou a competir. Porém, nunca mais foi o mesmo. Não me arrisco a afirmar que foi por causa do acidente, do lado de fora é muito temerário afirmar isso. Prefiro ficar com a hipótese de que Felipe sentiu a pressão de ter a seu lado um piloto fora-de-série como Fernando Alonso.

Schumacher também é outro gênio, mas em 2006 estava no fim de seu contrato com a Ferrari. Como dizia-se na época, Schumacher era o presente, Felipe era o futuro. Com a chegada de Alonso no time, este futuro virou um presente amargo. E claramente ameaçado depois do fatídico “Fernando is faster than you” na Alemanha em 2010. Ali, precisamente, começou a espiral de declínio do piloto brasileiro.

Dali para frente Massa só fez dois pódios, todos em 2010, nunca mais andou na frente como um dia foi capaz. O carro da Ferrari também nunca mais foi bom como em outros anos, mas comparando seu desempenho com Alonso, a diferença é grande. O espanhol dá um jeito de estar sempre na frente e ganha uma coisa aqui e outra ali, enquanto Felipe luta para pontuar. E em 2012, de grande a diferença tornou-se gritante.

Fossem os maus resultados de Austrália e Malásia exceções, seria algo a relevar. O problema é que a Ferrari vem relevando performances ruins há muito tempo. E em crises assim, a situação acaba chegando em um ponto insustentável. No meu entender, este ponto chegou hoje em Sepang.

A equipe emitiu um recado claro quando deu a Felipe um chassi novo para competir na Malásia. O desempenho na Austrália foi ridículo, ele reclamou, a equipe entendeu que o carro era problemático e deu a ele um novinho em folha. Ele disse que o carro era melhor nos treinos, se classificou um pouco melhor, mas fez uma corrida patética, desastrosa, risível.

Alonso venceu com o mesmo carro, coisa de piloto de outro planeta. Mas Felipe tinha obrigação ser, pelo menos, sexto colocado. Foi 15º, o último da corrida, já que os carros de Caterham, Marussia e HRT não contam. Foi tão ruim ou pior que na Austrália. Se o problema não é o chassi, qual o problema então?

Não sei, mas é fato que Felipe já não tem mais espaço na Ferrari. E, enquanto ele luta contra problemas muito provavelmente psicológicos, Sergio Perez, um jovem apoiado pela Ferrari como Felipe já foi no passado, chega em segundo e quase ganha com uma Sauber.

Não será injustiça alguma se a Ferrari romper o contrato com Felipe e substituí-lo por Perez já na próxima corrida. Não há mais ambiente, as críticas na Itália são ferozes e, dessa vez, cobertas de razão. Felipe está destruído moralmente, é um rascunho do excelente piloto que um dia foi. Talvez, em outro ambiente, possa recuperar a confiança. Na Ferrari, com Alonso, isso será impossível.

Agora a saída é só questão de tempo.

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Prateadas pipocando

Curioso demais o início de campeonato de McLaren e Mercedes, que na pré-temporada insinuaram que poderiam dominar o campeonato. Na Malásia, o que se viu foi a segunda pipocada de ambas em duas corridas.

O caso mais grave é o da Mercedes, que tem um carro rápido em classificação, mas desastroso em ritmo de corrida. Até começa bem, mas os pneus se desgastam rapidamente e depois disso é ladeira abaixo. Michael Schumacher foi prejudicado por um incidente com Romain Grosjean na primeira volta, mas ainda assim, não faria muito melhor do que o décimo lugar conquistado. Isso ficou claro pelo ritmo ridículo de Nico Rosberg, que durante boa parte da prova fazia tempos de volta similares aos dos pilotos da Marussia. Ter marcado um ponto foi até pouco merecido para o time. E não teria acontecido, não tivesse o motor Renault da Williams de Maldonado aberto o bico no finalzinho.

O que acontece com a McLaren é menos preocupante, mas ainda assim, é sério. Pelo domínio que demonstrou nos treinos e classificações de Austrália e Malásia, a equipe deveria ter saído desta primeira rodada dupla com duas dobradinhas e com domínio total na classificação. Não foi bem assim. Se Button foi genial e venceu na Austrália, Hamilton foi claudicante e terminou apenas em terceiro. Hoje, em Sepang, Button fez uma besteira monumental quando tentava ultrapassar a HRT de Narain Karthikeyan e perdeu o bico do carro. Culpa do incidente 100% atribuível (existe essa palavra?) ao inglês, que tentou atropelar o indiano, num erro raro em sua carreira. Teria feito um pódio certo, quiçá uma vitória, mas acabou fora da zona de pontos, em 14º.

Já Lewis Hamilton foi burocrático. Largou bem, mantinha a liderança com certa cautela sob chuva, até que foi vítima de erros de sua equipe em dois pit stops. Quando a pista secou, imaginava-se que conseguiria um ritmo suficiente para chegar na briga de Alonso e Perez, mas ficou acompanhando à distância. Um ritmo de prova estranho para quem tem o melhor carro deste início de campeonato. Fez outro pódio em terceiro, novamente com cara de nádegas durante a premiação.

A McLaren tem tudo para se recuperar, já deu mostras de que o carro é competitivo, mas perdeu uma grande oportunidade de disparar na frente. Na temporada europeia a Red Bull deve estar mais à frente e a briga tende a ser mais acirrada. No fim do ano, a equipe pode lamentar muito este início errante de campeonato. Já a Mercedes deve estar coçando a cabeça. O carro não aguenta 10 voltas com o mesmo pneu e isso é muito grave.

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El fodón

Flavio Gomes costuma chamar Fernando Alonso de “El Fodón de las Asturias”, e não vejo apelido mais adequado. O que fez o espanhol hoje com o limitadíssimo carro da Ferrari foi um daqueles momentos raros na história da Fórmula 1. Tudo bem que a chuva tende a embaralhar um pouco as coisas, mas o bicampeão mundial foi absolutamente perfeito em todas as condições. Fosse na chuva, na pista úmida ou na pista seca, Alonso fez com que a Ferrari parecesse um bom carro. Não é.

Na coletiva, foi absolutamente honesto: “Essa vitória não muda nada. Continuamos atrás e termos que lutar muito para irmos para o Q3 nas classificações”, observou. E durante a corrida isso ficou muito claro. Alonso conquistou a vitória durante o período em que a pista esteve de molhada para úmida, utilizando pneus intermediários. Aproveitou-se do acidente de Button com Karthikeyan, do erro da McLaren no pit stop de Hamilton, assumiu a ponta e conseguiu abrir ali uma sólida vantagem. Conforme a pista foi secando, perdeu terreno para Sauber e McLaren, mas a diferença já era boa o suficiente para tentar uma vitória.

A Sauber de Perez, no entanto, tinha mais ação e fatalmente venceria a prova, não fosse sua escapada. Alonso teve sorte, mas é a típica sorte dos vencedores. É preciso se colocar em posição favorável para colher bons frutos quando a sorte aparece. E foi exatamente o que Alonso fez. Não entrou em desespero com a pressão de Perez, manteve um ritmo de corrida consistente – ainda que mais lento – e assim estava em uma situação sólida para vencer. É assim que se faz.

Fernando Alonso é um ponto fora da curva e o que se viu hoje em Sepang foi a essência de um gênio das pistas. O carro pode ser uma porcaria, mas se o piloto é bom, coisas incríveis acontecem. E hoje aconteceu. Líder do campeonato com um carro que mal consegue se classificar entre os primeiros. Supera o início de campeonato de Ayrton Senna em 1993, em situação parecida. Lembrando que aquela McLaren do brasileiro era um belíssimo carro, tinha apenas era um motor muito fraco.

Alonso é piloto suficiente para superar as deficiências do carro. Não vai brigar pelo título, mas vai fazer o que se espera de alguém que recebe um grande salário: ser superior em qualquer circunstância. Tivesse a Ferrari dois Felipes Massa em seus cockpits, estaria zerada no campeonato. Alonso vale cada centavo investido nele. É o fodão.

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Nasce um gênio

No dia em que os gênios fizeram bobagem, um novo gênio aparece. No GP da Malásia, Jenson Button e Sebastian Vettel fizeram bobagens com a HRT de Narain Karthikeyan (que não teve culpa de nada, diga-se), enquanto que o mexicano Sergio Perez foi absolutamente fenomennal. A vitória foi de Fernando Alonso, mas o grande nome da prova foi Perez. Segundo colocado e quase vencedor, pois o piloto da Sauber foi o mais rápido da pista durante boa parte da corrida. Quando se preparava para ultrapassar Alonso e assumir a ponta a poucas voltas do fim, escapou da pista, mas conseguiu voltar para subir ao pódio.

A grande corrida de Perez em muito se deveu à estratégia. Enquanto a corrida começava com chuva e praticamente todos largavam com pneus intermediários (só a HRT arriscou chuva forte), a equipe chamou o mexicano para os boxes logo na primeira volta. Colocou pneus de chuva e foi escalando o pelotão. Quando todos pararam nos boxes, surgiu já em terceiro, ganhando seis posições com relação ao seu posto de largada. Valeu a pena. E era apenas o começo.

O GP foi interrompido pela chuva forte e foram necessários 50 minutos de espera para que fosse reiniciado. Com a pista secando, esperava-se que a vantagem da Sauber acabaria. Qual nada. Perez ainda ganhou uma posição quando a McLaren errou no pit stop de Lewis Hamilton, que caiu para terceiro ao voltar para pneus intermediários. Alonso virou líder e passou a ser perseguido pelo mexicano da Sauber, que foi encostando até que a Ferrari chamasse o líder da corrida para colocar pneus secos. Perez ficou uma volta a mais na pista e perdeu mais de seis segundos nesse momento, mas voltou a perseguir Alonso, chegando muito perto da ultrapassagem no finalzinho da corrida. Até que errou.

Pouco antes do incidente, Perez recebeu uma mensagem de seu engenheiro dizendo para ter cuidado, já que a equipe precisava daquela posição. Isso deu margem a teorias instantâneas de conspiração no Twitter, mas que me parecem um tanto infundadas. A Sauber é cliente de motores da Ferrari e muitos entendem que foi uma mensagem cifrada para ceder a posição. Uma bobagem. A Sauber queria, apenas, que o mexicano não corresse riscos desnecessários e não terminasse como Maldonado na Austrália semana passada. Simples assim. “Ultrapasse, mas tenha cautela”, era o recado. Menos, gente. Bem menos.

Mas, como bem mencionou o piloto João Paulo de Oliveira no Twitter, nunca se deve desconcentrar um piloto num momento como aquele. A mensagem de box pode, sim, ter afetado o desempenho do piloto, que errou. Mas daí a acreditar que tudo foi uma imensa farsa vai um oceano de distância.

A alegria genuína de Perez com o segundo lugar era a resposta a tudo isso. Um piloto jamais estaria assim tão feliz se tivesse sido “proibido” de vencer. No Twitter, dedicou o pódio a Frida, sua cachorrinha Sharpei que faleceu há poucos dias. Peter Sauber, no pit lane, estava em lágrimas. Um momento histórico para a Fórmula 1.

O mexicano foi o nome do dia, uma pena a vitória ter batido na trave, mas faz parte do processo de maturação de um grande piloto. Perez ainda vai longe na Fórmula 1 e, como brinquei no Twitter lembrando o jogo Super Monaco GP, quando parar nos boxes, vai receber a mensagem: “Firenze team wants you”. Depois do que fez hoje, Perez já tem vaga cativa na Ferrari. Só resta saber quando.

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Rapidinhas da classificação – Malásia

- Lewis Hamilton na pole, em mais um dia de domínio da McLaren. Jenson Button em segundo repete a dobradinha do grid da Austrália e faz acreditar que os carros prata não têm adversários para a corrida desta madrugada.

- No entanto, vai ser uma briga interna divertida de assistir. Pressionado, Hamilton precisa devolver o capote que levou na prova de abertura da temporada. Porém, a pista abrasiva de Sepang castiga os pneus e é preciso uma condução suave para que o carro possa desempenhar bem durante toda a corrida, que é longa e sob forte calor. Nessa, Button leva vantagem. Com os dois pilotos liberados para brigarem entre si à vontade, o GP da Malásia tem tudo para ser divertido.

- Michael Schumacher foi bem em todas as fases do treino e conseguiu colocar sua Mercedes entre as duas McLaren e Red Bull. Mérito para o alemão, mas não creio que poderá fazer grande coisa na corrida. Pelo que se viu semana passada, o W03 não é nada gentil com os pneus, que se degradam rapidamente. Um pódio seria uma vitória, uma situação altamente improvável.

- Atrás de Schumacher, largam Mark Webber e Sebastian Vettel. O bicampeão fez apenas o sexto tempo, mas larga em quinto graças à punição aplicada a Kimi Raikkonen por trocar o câmbio. O finlandês da Lotus seria o quinto, mas perdeu cinco posições e vai sair da décima posição.

- Porém, é bom prestar atenção na estratégia de Vettel. Ele é o único piloto dos que foram para o Q3 a fazer suas voltas com pneus duros. Abdicou de uma posição melhor no grid pensando na corrida. Se tudo der certo, deve fazer o último stint com pneus médios, quando todos os outros poderão estar utilizando compostos duros. Pode ser o pulo do gato.

- A Lotus é outra equipe que vem redondinha para esta corrida. Kimi sai em décimo (mas seria quinto) e Grosjean fecha a terceira fila do grid, ao lado de Vettel. É forte candidata a superar a Mercedes na corrida e pinta como terceira força do campeonato neste começo de temporada.

- A Ferrari foi aquilo que a gente já conhece: uma draga. Tirando leite de pedra, Fernando Alonso avançou ao Q3 e conseguiu o oitavo lugar no grid. E Felipe Massa já não foi tão mal quanto na Austrália. Caiu no Q2, larga em 12º, mas fez um tempo apenas três décimos mais lento do que seu companheiro de equipe. Pode não ser um bom resultado, mas não é nenhuma tragédia. Nada suficiente para que uma horda de tifosi furiosos invada Maranello empunhando tochas.

- Uma certa decepção, pelo menos de minha parte, com a Williams. Pastor Maldonado forçou, escapou da pista e não conseguiu avançar ao Q3, largando na 11ª posição. Bruno Senna foi dois décimos mais lento e sai em 13º. Porém, a Williams promete um ritmo de corrida melhor do que na classificação. Tem tudo para marcar pontos, é só ninguém bater na última volta.

- Um time que ainda não se achou na temporada é a Force India. Ficou pelo caminho no Q2, sem nenhum lampejo de brilhantismo como no ano passado, e vai ter Paul di Resta em 14º e Nico Hulkenberg em 16º. Bem diferente do ano passado, quando era figurinha fácil entre os dez primeiros. Perdeu o posto para a Williams.

- Medalhinha para Sérgio Perez, que colocou a Sauber no top 10 e vai largar em nono. Kobayashi, o mito, não foi nada brilhante e parte apenas do 17º lugar. Pelo menos é diversão garantida na corrida, saindo de trás para ultrapassar todo mundo.

- De resto, nota de dignidade para a HRT, que conseguiu ficar dentro da margem de 107% e vai conseguir estrear na temporada. Karthikeyan passou raspando, mas conseguiu entrar no grid por três décimos de segundo.

- Mesmo com a McLaren melhor, a corrida deve ser empolgante pela pequena diferença entre os carros. Na classificação isso ficou claro: do primeiro ao oitavo tempos (considerando o punido Kimi), menos de meio segundo de diferença. A F1 tá embolada e isso é uma excelente notícia.

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Nuvens negras

A situação não é tão feia como a chiliquenta imprensa italiana tenta passar, mas também não é tão tranquila quanto os comunicados oficiais tentam garantir. Mas Felipe Massa está, sim, sob muita pressão na Ferrari. A troca de seu chassi para o GP da Malásia, se por um lado dá margem para acreditar em uma espécie de teste final (se andar tão mal novamente, o problema está no piloto), também pode significar uma crença da equipe de que ele não seria capaz de uma corrida tão ruim quanto a da Austrália não fosse um problema grave.

Felipe nunca andou bem no Albert Park, é bom que se diga, e a Ferrari sabe disso. E não é desculpa esfarrapada, acontece mesmo. Até Ayrton Senna, genial por quase todo o tempo, dava uma amarelada em Paul Ricard. Nelson Piquet, outro grande, não andava bem em Spa-Francorchamps. E eu, com todo o meu talento inato, sempre me ferro em Cingapura jogando F1 2010. Acontece com quase todo mundo e o circuito da Austrália é o calcanhar de aquiles de Massa. Em dez corridas lá, fez apenas um pódio e nunca conseguiu largar melhor do que na quarta posição. E bateu em quatro delas. Se pudesse, Felipe daria um “skip race” lá, tenho certeza. Mas não pode.

Brincadeiras à parte, o certo é que um mau desempenho do brasileiro já era esperado na Austrália. Tomou uma luneta de Fernando Alonso, ficou chato, mas agora é partir para outra na Malásia. Porém… seu histórico em Sepang é tão ruim quando no Albert Park. Apesar de duas poles em 2007 e 2008, Felipe nunca conseguiu nem pódio por lá. Precisará superar um retrospecto ruim na pista, um retrospecto ruim recente, a força da natureza (a previsão é de chuva, condição que não lhe é muito favorável), um companheiro de equipe que é fenomenal e um carro que é uma porcaria. É muita superação para um único piloto, principalmente em crise. A chance de sucesso é pequena, ao meu ver. As nuvens negras não cobrem apenas Kuala Lumpur, parece haver uma exclusiva sobre o motorhome da Ferrari. Se quiser abafar a histeria italiana, Felipe precisará ser tão bom quanto em seu auge, entre 2007 e 2008. Conseguirá?

Infelizmente, acho que não. Mas também não acredito numa demissão iminente – embora não duvide. A Ferrari já fez isso antes com Ivan Capelli, há 20 anos, mas era outro mundo. Até a década de 90 era normal as equipes trocarem de pilotos como quem troca de aba no navegador, hoje a realidade atual é bem diferente. Há muitos contratos de patrocínio envolvidos, muitas amarras por todos os lados. Porém, sempre há a possibilidade de uma cláusula de performance embutida no contrato. Se ela existe, ninguém sabe.

Tomara que não.

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Coluna de hoje – A Williams está de volta

O campeonato mal começou, uma única corrida num circuito tão particular quanto o Albert Park não é o melhor dos parâmetros para se tomar posições definitivas, mas é inegável que o desempenho da Williams no GP da Austrália impressionou todo mundo. Embora Bruno Senna tenha sofrido um acidente no começo que prejudicou bastante sua corrida, o que Pastor Maldonado fez foi impressionante. E, por mais rápido que o venezuelano seja, a consistência de sua corrida se deve a um bom carro. É isso, senhores: a Williams está de volta.

Lógico, não é a Williams que conhecemos num passado já nem tão recente assim. Não vai brigar por títulos, vitória só se algo fora de série acontecer, mas deve marcar pontos com consistência. Maldonado disse depois da prova: “Acho que nós somos mais rápidos que a Ferrari, mais rápidos que a Sauber e a Forca India, também”. E ele tem razão.

Analisando os tempos de volta do venezuelano durante a corrida em comparação com os da Ferrari de Fernando Alonso, a conclusão é até óbvia. Maldonado podia estar em um bom dia, é um piloto veloz, mas não é nenhum Alonso. E ele conseguiu manter um ritmo tão consistente quanto o do espanhol, muitas vezes até melhor. E enquanto a Ferrari sofria com os pneus macios, que duraram apenas 13 voltas, a Williams fez 16 no primeiro stint, com carro pesado, e depois conseguiu repetir a mesma estratégia por mais 21 voltas. Desequilibrada, a Ferrari não pôde fazer dois stints com macios, optando pelos médios já no primeiro pit-stop. Conclusão: a Williams é equilibrada e consome adequadamente os pneus.

Outra informação importante antes de analisar os tempos de volta é que Fernando Alonso ficou praticamente dois terços da corrida a uma distância superior a dois segundos em relação ao carro da frente, o que significa que correu praticamente com pista limpa, podendo fazer tempos de volta sem ser prejudicado pelo carro da frente. Maldonado, por sua vez, ficou cerca de metade da prova sempre com alguém à sua frente, precisando negociar ultrapassagens e tendo seu ritmo de prova tolhido. Além disso, o piloto da Williams errou na quinta volta, quando escapou da pista e perdeu mais de cinco segundos. Ainda assim, perseguiu Alonso até o último giro, quando bateu.

A tabela com o tempo médio de cada piloto deixa bem claro que Maldonado está com mais do que razão. Ao menos na Austrália, a Williams esteve à frente da Ferrari. Descontando a volta em que o venezuelano saiu da pista, já que o objetivo é avaliar a consistência dos tempos, o primeiro e o segundo stints de Maldonado foram melhores que o da Ferrari. Impressiona, também, perceber que os dois carros fizeram o segundo stint com o mesmo número de voltas (21), mas tendo a Williams pneus macios, contra médios da Ferrari.

No último stint, Maldonado e Alonso andaram praticamente no mesmo ritmo, descontando a volta final, já que nela o piloto da Williams bateu e Alonso reduziu a velocidade para cruzar a linha de chegada. Fica claro que a Ferrari detinha o desempenho da Williams, que era mais rápida e tentava a ultrapassagem.

Será muito bom para a F1 que a Williams consiga permanecer no topo. Na Malásia teremos uma noção melhor do comportamento dos carros, já que a pista de Sepang castiga mais os pneus, ao mesmo tempo em que permite mais ultrapassagens que o Albert Park. Mas minha aposta é numa Williams pelo menos entre os oito primeiros, situação que pode permanecer até o meio da temporada. Uma boa notícia para Bruno Senna.

O pouco poder econômico do time, infelizmente, pode fazer com que o FW34 evolua menos que os adversários até o final do ano, modificando o cenário. Mas é certo, a partir do que se viu em Melbourne, que o carro é muito bem nascido. Tudo o que a Ferrari não é.

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Foi mal, aí

Pastor Maldonado fez um corridão na Austrália, mas jogou tudo pela janela na última volta. E foi honesto ao dizer após a corrida: “Infelizmente eu perdi a traseira do carro ao pressionar Alonso e não tive para onde ir”. O venezuelano era sexto, botava uma pressão dos infernos na Ferrari de Fernando Alonso, mas cometeu um erro capital. Isso tira seu mérito na corrida? Para mim, não.

A Williams vem da pior temporada de sua história, em 2011. A expectativa do time sempre foi bem clara: “marcar pontos de vez em quando”. Maldonado vai lá e coloca o carro no Q3. Larga em oitavo, passa a corrida toda na zona de pontuação, protagoniza belos duelos, dá um passão em Grosjean (acabou em toque, mas foi lance de corrida, nem investigação houve), ultrapassa uma Ferrari e ainda pressiona a outra no final. Poderia ter se acomodado e chegado num fantástico sexto lugar, mas preferiu ousar uma quinta posição. Merece condenação? Não.

A gente passa a vida toda reclamando que os pilotos estão bundões, que ninguém faz nada depois do último pit stop, fica todo mundo na viadagem do “bring the kids home”. Então, por coerência, não dá para condenar quando um piloto subverte a ordem e assume o risco para ganhar uma posição na última volta. Terminou mal, mas poderia ter terminado bem. E teve peito de assumir a responsabilidade e pedir desculpas para a equipe. “Foi mal, aí”. Tudo bem, fica para a próxima.

A Williams perdeu hoje pontos no campeonato, mas ganhou auto-estima. E uma auto-estima mais elevada da equipe como um todo trará mais resultados no curto e médio prazo. Prefiro mil vezes um piloto que faz um corridão e erra no fim do que um que passa a prova toda resignado com uma posição intermediária e não mostra brilho algum. É mais fácil um piloto ousado como ele acostumar-se a andar na frente e diminuir a quantidade de erros do que tentar fazer um cauteloso ser mais rápido. O cauteloso, quando tentar ser rápido, vai fazer ainda mais bobagens.

Se é pra escolher entre um Maldonado e um Timo Glock, eu contrataria um Maldonado. E você?

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Decepção prata

Quem prometeu e não entregou na Austrália foi a Mercedes. Fez mistério com o tal duto inovador, Schumacher fez patetice tentando esconder a grande novidade do carro enquanto um guincho retirava seu bólido da caixa de brita no sábado, classificou até bem, mas na corrida…

O carro da Mercedes é bom de treino, mas deixou muito a desejar na prova. Se é só o tal duto de ar acionado com o DRS o grande salto do carro, é um salto praticamente inútil. Pode colocar seus pilotos à frente no grid, já que nas classificações pode ser usado livremente, mas com as restrições de uso do mecanismo em corrida, o W03 vira um modelo absolutamente comum.

Michael Schumacher saltou bem na largada, pulou para terceiro, mas logo escapou da pista e abandonou. Ainda não ficou claro que escapou porque quebrou ou quebrou porque escapou, numa espécie de enigma germânico de Tostines, mas tanto faz. Pelo que se viu de Nico Rosberg na corrida, também não ficaria ali na frente por muito tempo.

Nico passou a prova toda no pelotão da merda, os pneus pareciam se desgastar com facilidade e a Mercedes não foi minimamente competitiva. De aspirante ao pódio, o máximo que conseguiu foi um decepcionante 12º lugar, fora da zona de pontos. É justo, entretanto, destacar que o alemão provavelmente chegaria em oitavo lugar e foi prejudicado pela batida de Maldonado. Porém, mesmo a oitava posição seria por demais decepcionante.

Aliás, o abandono de Schumacher dá a ele um recorde negativo na carreira. Ele acaba de entrar no “pódio dos sem pódio”. Explicando: ele tornou-se hoje o detentor do terceiro maior jejum de pódios entre pilotos já campeões mundiais. Os recordistas são dois: o inglês Graham Hill, que depois de ser campeão amargou 70 corridas consecutivas sem subir ao pódio, e Jacuqes Villeneuve, que também ficou 70 provas seguidas sem chegar entre os três primeiros entre 2001 e 2006. O terceiro lugar era de Mario Andretti, com 40 corridas, mas agora Schumacher chegou às 41 provas sem pódio. O alemão adora colecionar recordes, mas este com certeza não está entre seus pretendidos.

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Juntos!

O slogan do Banco Santander é “Juntos!” e soa como perfeita ironia para o que aconteceu com os dois pilotos brasileiros patrocinados pelo banco na Austrália. Felipe Massa e Bruno Senna foram para o buraco juntinhos, inclusive de “braços dados” num toque que enganchou seus dois carros, que andaram metros grudadinhos, juntinhos.

A corrida de Felipe Massa foi daquelas para esquecer. Se o brasileiro vinha de uma péssima temporada em 2011, a abertura de 2012 é desoladora, já que as coisas conseguiram ficar ainda piores. O piloto da Ferrari até começou a corrida bem, ganhou posições, foi agressivo, fez ultrapassagens, mas subitamente ficou sem pneus. Com cerca de dez voltas, seus pneus macios foram para o vinagre. Parou nos boxes cedo, voltou lá atrás, tentou recuperação, mas ficou sem pneus de novo. Foi o piloto que mais trocas fez, com três, e brigava pelas últimas posições quando se enroscou com Bruno Senna e abandonou.

O que torna mais grave a situação é que, se Felipe conseguiu ser rápido em alguns momentos, foi de uma forma artificial. De nada adianta fazer boas voltas, ultrapassagens, se você está jogando seus pneus fora. É inadmissível ser um destruidor de pneus, simplesmente não faz sentido. Enquanto isso, Fernando Alonso, de condução mais suave, brigava na frente e chegava em quinto, com dois pit stops. Felipe precisará se reinventar. E começo a temer por uma demissão ainda durante a temporada. O que ele fez hoje no Albert Park é similar ao que fizeram Luca Badoer e Giancarlo Fisichella quando o substituíram em 2009: nada. O F2012 pode ser uma porcaria, mas é preciso ser melhor do que isso.

Bruno Senna, por sua vez, tem um álibi: foi abalroado na largada, seu carro saltou, teve que dar uma volta inteira com um pneu furado e provavelmente isso causou um dano maior em sua Williams. Com um pit stop já na primeira volta, não tinha muito como fazer milagre. Foi para o fundo do pelotão e não tinha muito o que fazer se não torcer para chegar entre os 15, 16 primeiros. Mesmo assim, a corrida foi bem ruim e foi encerrada com um “abraço” na Ferrari de Felipe Massa.

Enfim, os dois saem da Austrália por baixo. E juntos.

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Brilhando no meião

A corrida da Austrália foi bacana principalmente porque muitos pilotos foram bem demais. Além de Button, Vettel e Alonso, pelo menos outros dois nomes merecem destaque: Pastor Maldonado e Sergio Perez.

O venezuelano da Williams fez uma corrida muito acima da expectativa, tanto dele quanto da Williams. Outrora chamado jocosamente de “maldanado”, o venezuelano queimou a língua de muita gente. Fez uma bela qualificação, saiu da oitava posição e ganhou posições já na largada. Na segunda volta, no entanto, cometeu um erro saindo da pista, mas voltou para fazer uma prova incrível.

Em momento algum deixou a zona de pontuação, fez ultrapassagens (uma belíssima sobre a Ferrari de Felipe Massa), atacou a Red Bull de Webber e pressionou Alonso de forma consistente após a entrada do Safety Car. Ainda que não tenha conseguido ultrapassar, tinha tudo para chegar num merecido e histórico sexto lugar, até que bateu na última volta.

Inicialmente, o acidente parecia uma “Maldonadice” que jogou fora pontos importantes para a equipe, mas vendo o replay, tendo a absolver o piloto. Não se percebe nenhum erro dele na câmera onboard, ele faz um traçado normal (ainda que atacando um pouco a zebra) e repentinamente o carro sai de traseira. Ele tenta consertar, perde o controle e vai de cara no muro. Passa a impressão de um pneu furado ou um problema de suspensão. Mas, ainda que tenha cometido um erro, Maldonado mais acertou do que errou na Austrália. O suposto erro pode ter sido capital, mas a imagem que ele deixa é muito positiva.

Sergio Perez, o outro grande destaque, foi punido por ter trocado o câmbio e teve que largar do último lugar. Ainda que beneficiado por um enrosco, ganhou nove posições na largada, o que não é pouco. Ultrapassou, foi rápido e ainda assim conseguiu conservar seus pneus macios por mais de 20 voltas, o que lhe permitiu fazer apenas um pit stop. Antes de sua parada, chegou a aparecer em segundo lugar, impressionante. O carro da Sauber se comprovou eficiente e deve brilhar na temporada.

Pena que, nas últimas voltas, sofreu com o desgaste de pneus – seu jogo de médios precisou durar cerca de 40 voltas – e acabou perdendo posições importantes. Era sétimo na entrada da última volta, mas vinha segurando um pelotão e foi atrapalhado pelo acidente de Maldonado. No “salve-se quem puder”, acabou ultrapassado por Kamui Kobayashi e Kimi Raikkonen, cruzando a linha de chegada em oitavo. Marcou pontos, mas merecia mais.

Aliás, destaque também para a briga de Kobayashi com Raikkonen. Os dois andaram a corrida inteira próximos, trocando posições e toques algumas vezes. Porém, sempre uma briga limpa, ainda que sejam dois pilotos reconhecidamente agressivos. Deu gosto de ver.

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Se o carro é ruim, o piloto não

O cenário se anunciava praticamente como o Inferno de Dante para a Ferrari na Austrália. Pior grid de largada da história na primeira corrida do ano, treinos decepcionantes, pilotos brigando com o carro e saindo da pista. E a obscura perspectiva se comprovou para Felipe Massa, mas isso é assunto para outro post.

A Ferrari, apesar de nitidamente não ter feito um bom carro – já tem gente o chamando de “O Biarticulado de Maranello” -, tem Fernando Alonso ao volante. E ele faz a diferença, como se viu hoje, chegando em quinto lugar após largar da 12ª posição. A equipe não era capaz de chegar nessa posição, o carro não era capaz desse resultado, mas Alonso foi capaz de executar tal proeza. Bem ou mal, a Ferrari do espanhol foi o primeiro carro depois das dominantes Red Bull e McLaren. Isso é muita coisa.

Com o material que tem nas mãos, Alonso foi demais. Foi para cima na largada, ganhou posições rápido, conseguiu manter um ritmo estável de corrida, não errou, e tomou pressão da Williams de Pastor Maldonado até o final, um carro que nitida e surpreendentemente tinha mais ação, e suportou bem. O quinto era o máximo possível, talvez até inatingível, mas ele chegou lá.

A Ferrari vai ter que trabalhar muito para ter alguma chance de vitória neste ano, mas a resposta do bicampeão, nas pistas, dá o estímulo que a equipe precisa para crescer. Não vai ser fácil, mas com Alonso na pista as coisas ficam menos difíceis.

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Button, o cara

Jenson Button é o cara. Na Austrália então, nem se fala. Venceu hoje pela terceira vez em quatro anos no Albert Park e agora só perde para Michael Schumacher, que ganhou quatro vezes no belo circuito australiano.

O inglês sacramentou a vitória logo no começo da corrida, com uma largada muito melhor que a de seu companheiro de equipe, o pole position Lewis Hamilton. Contornou a primeira curva na frente e despencou na liderança, sem dar chances a ninguém. A bordo de um carro estável e carinhoso com os pneus, virou tempos consistentes e manteve sempre Hamilton sob controle. Depois do primeiro pit stop, foi beneficiado pelo fato de seu adversário direto ter ficado preso atrás da Sauber de Sérgio Perez e conseguiu abrir uma vantagem mais confortável, de cerca de dez segundos.

Encaixotado, Hamilton ficou à mercê de Sebastian Vettel e viu sua corrida ir para o vinagre. E o Safety Car provocado por Vitaly Petrov no terço final da corrida sacramentou os azares Hamiltonianos, que perdeu a posição para o alemão da Red Bull, que fez o pit stop sob bandeira amarela e pulou para segundo. Button teve sua vantagem perdida, mas na relargada partiu bem e abriu novamente uma distância confortável com uma rapidez espantosa, partindo definitivamente para a vitória.

Enquanto isso, Hamilton lutava para ultrapassar Vettel, em tarefa tão hercúlea quanto infrutífera. Apesar de nitidamente a Red Bull não ser um grande carro (o bicampeão passou boa parte da corrida brigando com o touro indomável, chegando a sair da pista), é um modelo rápido. É preciso forçar, mas é possível vencer. Vettel deu mostras disso hoje segurando Hamilton com maestria. Atrapalhou uma dobradinha garantida da McLaren, um resultado acima do esperado pelo que se via na corrida e que pode fazer diferença no fim do campeonato.

Vettel foi bem, Hamilton não, e Button é o cara. No fim de semana em que a McLaren foi melhor, soube tirar proveito disso. E num campeonato apertado como se anuncia, não se pode desperdiçar uma chance como essa. E Hamilton, que é bom mas não é o cara, foi o perdedor do dia. Mas ainda há 18 corridas pela frente (duvido que as 20 aconteçam, Austin ou Bahrein, senão as duas, serão canceladas) e pode se recuperar. Talento para isso tem, falta cabeça. E pode faltar mais ainda, com um piloto de pilotagem perfeita ao seu lado na mesma equipe.

No talento, a briga interna da McLaren é até equivalente. No lado psicológico, Button leva de goleada. E hoje foi só o primeiro golpe.

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Rapidinhas da Classificação – Austrália

- Sensacional o primeiro treino de classificação da Fórmula 1 em 2012. Muitas surpresas e um grid embaralhado que mostram que o novo regulamento apertou o botão shuffle da categoria. E a playlist resultante ficou legal às pampas.

- Dobradinha da McLaren no grid: Lewis Hamilton na pole, Jenson Button em segundo. Muito bacana ver um carro bonito andando na frente, mandando uma banana para os ornitorrincos feiosos que dominam o grid (em quantidade).

- A McLaren entendeu que seu maior problema em 2011 foi a pouca velocidade em qualificações. Suas posições de largada minaram suas chances de rivalizar com a Red Bull no campeonato e a equipe decidiu trabalhar em cima desse problema no carro de 2012. Pelo jeito, atingiram o objetivo.

- Lewis Hamilton fez uma voltaça logo no começo do Q3 e deixou o resto dos pilotos tentando batê-lo, em vão. O inglês se deu ao luxo de abortar sua última volta rápida quando viu que não mais seria superado. Button ficou perto dele, a um décimo e meio.

- A vantagem da McLaren não parece, no entanto, ser grande. Lotus (com Grosjean), Mercedes e a própria Red Bull estão perto. Nenhum carro dominou o grid da forma como fez a equipe dos energéticos no ano passado, o que é uma ótima notícia. Campeonato mais disputado à vista.

- No entanto, treino é treino e corrida é corrida. Um belo desempenho em voltas rápidas com pneus macios não significa necessariamente facilidade durante a prova. É preciso também fazer boas voltas de forma constante com tanque cheio e pneus mais duros para poder vencer. Não me arrisco a colocar a McLaren como favorita. Se alguém tiver um ritmo de corrida mais consistente, leva.

- No Q1, belo desempenho da Sauber, que fez o melhor tempo com Kamui Kobayashi. Mas algum problema atrapalhou a equipe no Q2. Sergio Perez nem foi para a pista e Koba fez apenas uma tentativa, com um tempo de volta pior do que o que havia feito no Q1. Chegaria no Q3 com folga se tivesse repetido o mesmo tempo da primeira parte do treino. O time ficou com o 13º e o 17º lugares.

- Jean-Eric Vergne foi outra boa surpresa do Q2, ficando na segunda posição. Porém, pouco melhorou no Q2 e terminou em 11º. Ainda assim, uma bela posição de largada para a corrida de estreia. Daniel Ricciardo, seu companheiro na Toro Rosso, foi ao Q3 e larga em 10º.

- E a Ferrari. Ah, a Ferrari… o F2012 é uma bomba que logo logo vai explodir em alguém. Cabeças devem rolar rapidinho, porque o desempenho da equipe foi vergonhoso na classificação. Fernando Alonso e Felipe Massa passaram pelo Q1 raspando, tendo que queimar um jogo de pneus macios para ter alguma chance de ser ao menos 17º. Conseguiram, mas fizeram fiasco no Q2. Tentando andar mais que o carro, o espanhol rodou e foi parar na brita. Vai sair em 12º. Massa não achou uma volta decente e vai largar na 16ª posição.

- O 12º lugar de Alonso como melhor Ferrari do grid é a pior posição de largada da equipe numa primeira corrida do ano em toda a história da Fórmula 1. Mas isso é assunto pra outro post.

- A Williams, quem diria, se mostrou mais consistente que a Ferrari. Bruno Senna fez um bom Q1, mas ficou pelo caminho no Q2. Pastor Maldonado deu um show levando o carro ao Q3 e vai largar em oitavo. Falam mal do venezuelano, mas é a quarta vez que ele chega com a Williams ao Q3 em 20 corridas. Nenhum de seus companheiros de equipe (Barrichello ou Senna) conseguiu isso neste mesmo período.

- A Lotus teve um treino bipolar. Kimi Raikkonen foi o desafortunado a cair no Q1 junto com as favas contadas Caterham, Marussia e HRT. Tinha tudo para passar ao Q2 (e deixaria Massa em situação ainda mais complicada), mas errou na última volta, saiu da pista e ficou apenas com o 18º tempo. Já Romain Grosjean foi um dos destaques do dia. Consistentemente rápido em todas as fases da classificação, emplacou um terceiro lugar no grid. Mostrou ser mais do que um cabelo extravagante e começa a se redimir da péssima imagem que deixou em sua primeira passagem pela F1 em 2009.

- A Mercedes foi competitiva, dominou o Q2, mas algo deu errado na fase decisiva do treino. Michael Schumacher ficou em quarto, mas ainda assim é sua melhor posição de largada desde seu retorno à F1, em 2010. Nico Rosberg é que decepcionou, ficando apenas na sétima posição.

- Falando em decepções: Red Bull. Definitivamente, não é mais o carro arrasador em classificações que se viu em 2011. Tanto que é a primeira vez que não há um carro rubrotaurino na primeira fila do grid desde o GP da Itália de 2010, quebrando uma série de 24 corridas saindo na frente.

- Nota-se que o carro não é estável. Na ânsia de andar rápido, Sebastian Vettel cometeu erros e ficou apenas com o sexto lugar. Mark Webber, o canguru local, bateu o bicampeão mundial e sai em quinto. Ainda assim, não descarto a Red Bull da prova de amanhã. Em ritmo de corrida as coisas podem ser diferentes.

- HRT, Hedionda e Ridícula Tartaruga, não vai correr. De la Rosa e Karthikeyan fizeram apenas duas voltas rápidas cada (rápidas é força de expressão) e não atingiram o limite de 107% do tempo da melhor volta do Q1 para ter direito a largar. Que bom, não merecem mesmo correr.

- Amanhã, o GP da Austrália será cheio de variáveis, numa pista legal. Vai ser um corridão.

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