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Perfil
Ivan Capelli não é um ex-piloto de Fórmula 1, embora o nome sugira isso. É um jornalista não-praticante gaúcho que adora dar pitaco em diversos assuntos, principalmente automobilismo. Escreve sobre Fórmula 1 na Internet desde 1998, tendo sido um dos primeiros a fazer isso no Brasil. Desde 2003 colabora com o site Grande Prêmio. Já escreveu também para o site GP Total e foi o responsável pela tradução do GP Guide, Bíblia da F1, para o português brasileiro. Fundou e assina matérias para a Revista Warm Up. Também quebra galhos como ilustrador picareta. Mas faz tudo isso por gosto pelas corridas, já que sua atividade principal é como gestor em uma empresa de Tecnologia da Informação. No fim das contas, não sabe nada de nada, mas parece que engana muito bem. SIGA NO TWITTER ASSINE O RSSBusca no blog
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Arquivo da categoria: Entrevistas
A versão de Lemyr Martins
No final da tarde de hoje, conversei por trinta minutos com Lemyr Martins, o autor do livro que gerou tanta polêmica em torno da veracidade do diálogo entre Rubens Barrichello e a Ferrari durante o GP da Áustria de 2002. Bastante simpático e solícito, o veterano jornalista me explicou a sua versão.
Durante o papo, Lemyr disse que recebeu a transcrição por escrito, em inglês, e que publicou mesmo achando o conteúdo estranho. Segundo sua avaliação, quem fez a transcrição “pode ter colocado uma pimenta”. E fez questão de afirmar que não recebeu nenhum contato do Diário Lance! ontem.
Ivan Capelli – Lemyr, como você recebeu essa transcrição da conversa?
Lemyr Martins - Quem me entregou a transcrição foi uma das pessoas que eu mais confio na Fórmula 1, um cara que eu conheço desde 1968. Você sabe que uma equipe sempre está espionando a telemetria da outra, eles têm a freqüência. A gravação foi feita, toda ela. O que aconteceu foi que depois dessa gravação, me disseram agora, realmente esse texto apareceu na Internet e levaram na gozação.
Disseram que a Ferrari não confirma, mas eu não esperava que a Ferrari confirmasse essa transcrição. Disseram que o cara lá (Karl Scheister) não existe. Mas é claro, quem paga o salário dos pilotos da Ferrari é a Marlboro e a Shell. Não é a Ferrari que paga. Então aquele cara que teria que falar era um cara da Marlboro e que não usou o nome dele, porque foi cifrado. Isso a pessoa me disse. É claro que o pessoal vai dizer que isso não existe, que aquela transcrição não é verdade. A transcrição tem algumas falhas, inclusive quando tem falhas os caras colocam “pouco audível”. Mas daí a negar que houve a coisa? Puxa vida.
IC – Quando você recebeu este relato, usando aquele juízo crítico de um jornalista, você não achou fantasioso demais? Por exemplo, o advogado ameaçando confiscar o cachorro do Barrichello, ou a mãe dele dizendo que estava com dores nos pulsos e num lugar escuro? Isso não é um pouco estranho?
LM - O que acontece é o seguinte. Me deram uma transcrição. Agora eu pego aquela transcrição e eu sei que pode ter alguma coisa que não é, aí eu vou começar a tirar e colocar aquilo? Aí o cara vai dizer: “Isso aqui não existe”. Eu achei fantasioso. Mas qual é o nome do livro? “Histórias, Lendas, Mistérios e Loucuras da Fórmula 1″. Então eu acho que você que é jornalista e editor de blog sabe, essa história não cabe aí? O que tu achas?
IC – Sim, cabe aí. Mas a partir deste momento, a gente passa a entender que nem tudo o que está no livro é verdade, pode ter muito boato…
LM - Não digo que pode ter boato, mas durante a transcrição, o cara pode ter até colocado uma pimenta, sei lá… O que eu acho interessante é que as pessoas dizem que eu guardei [a história] para dar como factual. Durante muitos anos eu fui colecionando histórias [cita histórias de Fangio, Emerson, Graham Hill, Wilsinho], e tem essa do Rubinho. Eu não estou dando como factual. A maioria são histórias bem antigas, de memória. Essas histórias estavam comigo porque não agüentavam uma reportagem. Houve a conversa, mas a Ferrari nunca vai confirmar.
IC – Não há dúvida nenhuma de que uma conversa houve, o que se questiona é o conteúdo. Vou dar um exemplo: durante o diálogo, Jean Todt diz que a mãe de Barrichello, Dona Idely, está muito feliz por acompanhar a corrida com a equipe. Mas naquele domingo ela não estava na Áustria, ela estava no Brasil, em São Paulo.
LM - Ela estava acompanhando a corrida online, mas ela não estava lá.
IC – Mas o Jean Todt diz: “Ela está adorando assistir a corrida conosco”…
LM - Mas é isso que eu quero que me entendam. Eu não posso pegar a transcrição e mudar isso. Você pega lá o documento do Watergate, os caras não puderam mudar. Se pudessem mudar, o Nixon tinha caído antes. Eu perderia a credibilidade se eu tivesse mudado uma coisa, pois aí eu estaria em dívida com a pessoa que me deu a gravação. Essa pessoa eu conheço desde 1968, trabalha na Fórmula 1, hoje trabalha numa grande equipe, tá muito bem, ela recebeu a gravação de dentro de uma grande equipe, de um cara que todo mundo gosta, um cara acima de qualquer suspeita.
IC – O que casou grande surpresa foi o modo como o livro foi comercializado, na contracapa, diz: “Lemyr Martins revela pela primeira vez o diálogo entre Rubinho e o chefão da Ferrari, Jean Todt…”
LM - Isso eu falei para ele… aí você sabe, editora é editora, a editora está promovendo o livro, eu não vi. Eles botam ali uma coisa: “a gente coloca aqui que você é o cara mais respeitado da Fórmula 1″, e eu disse “eu posso ser um jornalista com algum respeito, não pelo mérito, mas pelo tempo”. Eles colocaram isso ali, a editora. Agora, eu sou pago pela editora… mas não reclamo.
IC – Posso fazer um resumo, isso está correto? Na verdade a história pode ter alguns ingredientes que podem ser umas “pimentas”, não necessariamente a verdade. Mas pelo fato da história ser boa e pelo fato de confiar na fonte, o senhor acabou colocando no livro porque achou que se enquadrava com o tema. É isso?
LM – É isso. E agora também tem uma coisa… eu não escrevi “em primeira mão” na capa. Se você ler o livro você vê que eu estou dizendo que foi no GP da Áustria de 2002.

