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Perdidos no roteiro

Lost teve seu desfecho exibido há poucos minutos. Mas não se preocupe, não farei o papel de estraga-prazeres contando o final. O objetivo aqui é outro: agradecer aos produtores por todos os cheques sem fundo emitidos nos últimos seis anos.

Sim, porque o que se espera de um seriado baseado em mistérios é que eles se resolvam. Seja de forma pouco criativa, como nos desenhos do Scooby-Doo, seja de maneira extraordinária e impactante, como no filme “O Sexto Sentido”. O problema é que os roteiristas de Lost não foram nem para um lado, nem para o outro. Simplesmente abandonaram tudo o que construíram durante anos, deixaram para lá. Criaram um final plenamente coerente com a sexta e última temporada, mas ignorando completamente dezenas de pontas soltas em anos anteriores.

Não esperava e nem nunca esperei de Lost respostas fáceis ou um final no melhor estilo novela das oito, com tudo sendo explicado à exaustão. Mas, desde que a série começou, despendi meu tempo assistindo a seus episódios esperando entender que quebra-cabeça maluco era aquele. Várias vezes pensei: “Esses caras são geniais. Quero muito descobrir que história fantástica está por trás disso”. É lamentável, mas o final deixa claro que eles não sabiam o que estavam fazendo.

Parafraseando outra série famosa e reduzindo todas as temporadas a um episódio, o que foi feito em Lost seria como se um paciente do Dr. House tivesse os sintomas mais absurdos do mundo. Um sem relação nenhuma com o outro. A coisa vai piorando cada vez mais até que, no fim, House descobre que ele tinha uma gripe. Mas gripe causa cegueira? Gripe causa o surgimento de um segundo nariz? Gripe faz você falar romeno de trás para frente? Não, claro que não. Mas gripe causa febre. O paciente tinha febre, então era gripe.

Agora, conhecendo o final de toda a história, fica nítido para quem acompanhou a série que gigantescos equívocos de roteiro foram cometidos. Partindo da premissa de que o Monstro de Fumaça, de fato, estava preso à ilha, como ele apareceu no cargueiro – fora da ilha, portanto -, para Michael? Se o Monstro era mesmo a personificação do mal, por que quando Locke encontrou-se com ele no começo da série, disse que viu algo bem diferente da entidade maléfica retratada por Mr. Eko? Ben, durante um tempo, pareceu ser um homem rico e poderoso fora da ilha. Quem o financiava? Uma empresa gigantesca de biotecnologia recrutou Juliet para ir para a ilha. Quem eram essas pessoas? Que ligação tinham com Ben? Quando Locke foi baleado, quem o salvou foi o garoto Walt. Mas ele estava fora da ilha, então subentende-se que era alguém em sua forma. O único que assumia formas era o Monstro de Fumaça, mas ele só fazia isso com quem já tinha morrido. Então, a salvação de Locke não fez sentido algum.

Felizmente, tudo o que dediquei à Lost foram os minutos de cada episódio e alguns bate-papos com amigos bolando teorias. Lamento muito é por aqueles que dedicaram tempo fazendo blogs, participando de jogos de realidade alternativa, postando em fóruns e comprando produtos, pensando que estavam diante de um genial quebra-cabeças que, no fim, revelou-se um grande jogo de pistas falsas. E o espectador termina com a sensação de que foi enganado.

Suprema ironia: a série que contava a história de pessoas perdidas – na vida ou em uma ilha -, fez muita gente perder tempo. E, no final, a paciência. Já vai tarde o maior engodo da televisão nos últimos anos.

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