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Ivan Capelli não é um ex-piloto de Fórmula 1, embora o nome sugira isso. É um jornalista não-praticante gaúcho que adora dar pitaco em diversos assuntos, principalmente automobilismo. Escreve sobre Fórmula 1 na Internet desde 1998, tendo sido um dos primeiros a fazer isso no Brasil. Desde 2003 colabora com o site Grande Prêmio. Já escreveu também para o site GP Total e foi o responsável pela tradução do GP Guide, Bíblia da F1, para o português brasileiro. Fundou e assina matérias para a Revista Warm Up. Também quebra galhos como ilustrador picareta. Mas faz tudo isso por gosto pelas corridas, já que sua atividade principal é como gestor em uma empresa de Tecnologia da Informação. No fim das contas, não sabe nada de nada, mas parece que engana muito bem. SIGA NO TWITTER ASSINE O RSSBusca no blog
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Fórmula Ornitorrinco
Depois do lançamento da Caterham na semana passada, as novas Ferrari e Force India divulgadas hoje confirmaram a tese de que os carros da Fórmula 1 deste ano serão ornitorrincos feitos de fibra de carbono. Mas por quê essa solução aerodinâmica bizarra?
Bom, o motivo dos engenheiros terem escolhido este desenho eu realmente não sei. Mas o que provocou tal mudança foi o novo regulamento da categoria. Por questões de segurança, a FIA instituiu que os bicos dos carros este ano não poderão ter uma altura superior a 55 centímetros em relação ao solo.
A preocupação é com possíveis colisões em “T”. Na altura em que os bicos estavam até o ano passado, era possível que estes acertassem a cabeça de um piloto adversário em caso de um choque perpendicular. Com imposição da nova altura, agora o bico do carro bateria na lateral do cockpit, preservando assim o piloto que sofresse a eventual pancada. Como o regulamento diz que a altura do cockpit pode permanecer a 62,5 cm do solo, a melhor alternativa encontrada pelos projetistas, depois de simulações aerodinâmicas (creio), foi criar este degrau esquisito no bico.Até agora, a McLaren parece ter fugido à regra, mas ainda não dá para ter certeza. Como o bico apresentado anteontem não é o que será utilizado na temporada, novidades (desagradáveis) podem aparecer nos carros prateados nas primeiras provas do ano. Uma coisa é fato: os carros da F1 estão medonhos em 2012.
Tags: Ferrari, FIA, Force India, Regulamento
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Virou farelo

Muita gente acredita na máxima que diz que “qualquer propaganda é boa propaganda”, e este parece ser o caso dos executivos mundiais da Pirelli. Sim, por que só isso explica o tamanho descalabro que tem sido o retorno dos italianos para a Fórmula 1.
Não há dúvidas de que fornecer pneus para a Fórmula 1 é uma excelente estratégia de marketing. A empresa ganha visibilidade mundial, aparece em todos os carros, no cenário de todas as corridas, no boné dos vencedores, enfim… garante presença da marca em praticamente todos os meios de comunicação do mundo durante um ano inteiro. Tal exposição não tem preço. Mesmo o investimento milionário para desenvolver e fabricar os pneus compensa de longe o retorno em visibilidade da marca. Até aí, está garantida a propaganda. O problema é que ela precisa ser boa.
Mas não é o caso até aqui. A pedido da organização da Fórmula 1 – é bom que se diga -, a Pirelli caiu na armadilha de fabricar pneus menos resistentes e com uma variação de desempenho maior que os anteriores da Bridgestone. Quando novos, andam que é uma beleza, mas em poucas voltas perdem rendimento. O objetivo é tornar as corridas mais movimentadas, com mais ultrapassagens e pit stops. Assumir este desejo dos organizadores já é um grande risco, e ele foi assumido pelos italianos.
A situação, no entanto, foi um pouco além do previsto. Não que os pneus representem um risco severo à segurança – até agora não provocaram nenhum acidente – o problema é que os compostos da Pirelli se esfarelam a olhos vistos. Domingo passado, em Sepang, a situação chegou a limites absurdos. Como se vê na foto que ilustra o post, os trechos da pista externos ao trilho por onde passam os carros ficaram tomados de nacos de pneus, num nível muito maior do que o já visto alguma vez na história da Fórmula 1.
E aí cabe a pergunta: valeu a pena? Durante a prova, no Twitter, foi possível constatar diversas piadinhas a respeito, de gente de todo o mundo. A brincadeira mais corrente era: “Tomara que a Pirelli não traga a tecnologia da Fórmula 1 para o meu carro”. E aí, o que deveria ser um grande apelo de propaganda, virou piada. Ou seja, eu até compro um Pirelli, mas desde que não seja aquela porcaria que eu vejo na Fórmula 1.
Ainda que no inconsciente, a Pirelli está gravando na cabeça dos consumidores do mundo todo, via F1, a mensagem de que fabrica pneus que duram pouco. Que fazem sujeira. Que são ruins. Em breve, podem causar acidentes. Fernando Alonso já sinalizou preocupação com o excesso de “marbles” que os Pirelli lançam na pista, dizendo que tentativas de ultrapassagem em pistas como Montreal e Cingapura podem terminar em acidentes caso o piloto “pise” no lado sujo da pista.
No fim das contas, a situação é um grande contrassenso. A Fórmula 1 sempre se posicionou como auge tecnológico do automobilismo, tendo os melhores pilotos, os melhores fabricantes, os grandes patrocinadores e tudo de grandiloquente que se imagina relacionado a corridas. E aí, propositalmente, contrata alguém para fabricar um pneu vagabundo. E esse alguém aceita. Absurdo.
As corridas ficaram movimentadas, isso é inegável. E se a emoção é genuína ou fabricada, é outra discussão. O fato, no entanto, é que a nova regra dos pneus está criando imagens contraditórias. E fazendo a reputação da Pirelli virar farelo.
Tags: FIA, GP da Malásia, Pirelli, Regulamento
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Asa móvel: #EpicFail

Incrível como, ano após ano, a FIA se esforça em criar novidades no regulamento da Fórmula 1 que simplesmente não atendem em nada os objetivos propostos. O último #EpicFail da entidade foram as tais asas móveis, que estrearam no GP da Austrália.
O recurso, criado com o intuito de facilitar ultrapassagens, revelou-se uma engenhoca inútil. No começo da prova, quando Jenson Button atacava Felipe Massa, que vinha num ritmo bem mais lento, imaginou-se que a asa móvel resolveria a parada. Com ansiedade, todos esperaram Button acionar o dispositivo pela primeira vez. O inglês fez a última curva da pista colado na Ferrari do brasileiro, a luz do volante acendeu, ele acionou o dispositivo e… nada aconteceu. O piloto da McLaren tentou ultrapassagens por oito voltas, até se afobar e cortar uma curva.
A asa móvel foi absolutamente inútil exatamente na situação a qual mais dela se esperava. Disputa direta de posição, dificuldade de ultrapassagem mesmo com um carro mais lento à frente. E a solução de todos os problemas não solucionou coisa nenhuma.
O caso Button-Massa foi o mais emblemático, mas em várias outras brigas na corrida a asa móvel foi utilizada. E, assim como no primeiro caso, de pouca coisa serviu. Virou apenas mais uma traquitana besta. Talvez sua maior valia tenha sido na ultrapassagem de Felipe Massa sobre Sebastien Buemi, no final da corrida. Ainda assim, uma manobra que provavelmente aconteceria também sem ela.
Talvez, em autódromos com retas mais longas, como Shanghai, ela sirva para alguma coisa. Mas é motivo de chacota criarem um frisson tão grande em cima de algo que, na prática, funciona apenas em determinadas condições. E assim segue a Fórmula 1, até a próxima “inovação” enfiada goela abaixo, sem resultados práticos.
"A decadente F1" ou "Novidades a caminho"
Os leitores em geral têm se mostrado revoltados com a falta de posts aqui no blog e não lhes tiro a razão. Entendo e sei como é chato quando uma revista/jornal/blog/site que acompanhamos simplesmente para de ser publicado ou atualizado. Nos sentimos atingidos, como se nos tirassem algo a que nós é muito caro. Compreendo.
Mas o fato é que este blog, desde o início – mesmo na época das charges – pautou-se exclusivamente pela Fórmula 1. É um blog pessoal, sempre foi, mas sempre fiz questão de manter a pauta restrita à categoria que sempre vi como a melhor e de maior representatividade no automobilismo mundial. A linha de corte também serviu para facilitar o trabalho. Como a maioria que me acompanha sabe, tenho outras atividades profissionais e o blog sempre foi uma válvula de escape, feito com dedicação em meu tempo livre. Então não dá para querer falar de todas as categorias, o que demandaria muito tempo e tornaria o blog apenas um noticioso superficial. E, dessa maneira, não valeria a pena manter.
O problema é que a fórmula dá sinais de esgotamento. Soma-se a vida pessoal do blogueiro, as rápidas mudanças de costumes da audiência, as novidades tecnológicas (olha o Twitter aí) e a temporada farsesca que foi a de 2009 e tem-se o cenário atual: poucas postagens.
O GP de Abu Dhabi, no meu entender, serve como um marco e uma referência do que será a Fórmula 1 daqui para a frente. O foco não está na competição, o foco não está no automobilismo, o foco não está no cheiro de borracha queimada, no desafio e na coragem dos pilotos. O foco está no espetáculo. E espetáculo é tudo aquilo que brilha e chama a atenção. Então… grande coisa se a corrida foi uma porcaria. O hotel muda de cor! A corrida acontece ao pôr-do-sol, o cenário é lindo. É a Fórmula 1 se transformando no que o Cirque du Soleil fez com a ginástica artística. Mas pelo menos a ginástica não foi extinta. Já a Fórmula 1 só gira em torno de si mesma e, no ritmo atual, está se engolindo.
Sempre cito o sábio Panda, que desde 2003 alerta que a Fórmula 1 acabou. Virou uma palhaçada midiática, uma competição na qual o mais rápido não necessariamente é o pole, no qual chegar em segundo ou primeiro dá praticamente no mesmo, em que o título geralmente é definido na última corrida apenas por força do regulamento e não em razão de um equilíbrio real. Houve até grandes decisões de título em 2007 e 2008, mas me pergunto se vale a pena pagar o preço de um campeonato patético como o de 2009 para viver minutos de emoção. Não que o fato da Brawn ser campeã na estreia seja um demérito para a categoria, não é. O demérito está no regulamento dúbio, nas decisões políticas que levaram a Red Bull a ter um projeto similar ao da Brawn vetado e depois ver o adversário ganhar tudo com a mesma ideia. Os dois pesos e duas medidas dos dirigentes vêm marcando pelo menos os últimos anos da categoria. E se há 20 anos também havia favorecimentos, vide Jean-Marie Balestre e Alain Prost, eram atitudes pontuais. Hoje, o problema é estutural, como compararia Cléber Machado.
Sou um crítico árduo da gestão da Stock Car brasileira, mas fico pensando se o errado da história não sou eu. Bem ou mal, apostando mais no show e menos em competição, eles vêm seguindo a mesma fórmula mágica de Bernie Ecclestone e Max Mosley. Podem ficar ricos, podem ter autódromos cheios, mas essa competição fajuta certamente não é aquela que quem se acostumou a ver nos anos 70, 80 e até meados 90 entende como verdadeira.
Mas o desabafo não é para justificar o fim do blog, até porque o blog não vai terminar. Mas é uma visão mais ampla para que todos possam entender as mudanças que virão. Não sou acomodado, é preciso ousar, é preciso reagir, é preciso sair da mesmice. O blog já teve dois momentos, primeiro o de charges e depois o de notícias e comentários. E, como da primeira vez, a decisão de mudar nasce da necessidade de fazer algo diferente. As “Charges do Capelli” foram pioneiras na Internet, mas quando esgotaram-se, deram lugar a um novo formato. Quando o novo modelo entrou em vigor, no começo de 2007, havia na Internet brasileira praticamente apenas o blog do Flavio Gomes dedicado ao automobilismo. O Blog do Capelli apareceu para complementar, para mostrar um lado B da Fórmula 1, com curiosidades, bom humor e notícias que pouco apareciam. Mas isso também se esgotou. Hoje, excelentes jornalistas como Fábio Seixas, Ico, Pandini, Rodrigo Mattar e Victor Martins mantêm blogs de alto nível. Abnegados como o Rianov Albinov e o Becken Lima também. Mas a Internet está inflada de blogs de F1. Alguns bons, outros nem tanto, mas é preciso mudar outra vez.
Assim, proclamo uma pausa nas atualizações. Enquanto isso, não pensem que estou de folga. Estou trabalhando no novo formato, novo layout, tudo vai mudar. O foco segue sendo a F1, mas outras coisas vão pintar no balaio. Mas, lógico, as opiniões, as críticas, o bom humor e as curiosidades vão continuar. Afinal, é um blog pessoal e não há como fugir a características inerentes à pessoa. Uma novidade bem legal já está sendo desenvolvida por mim, Bruno Mantovani e o Robson Moraes, aquele mesmo que fez o jogo online Trunfo das Equipes. Será bem bacana.
O novo Blog do Capelli ainda não tem data para estrear, mas deve pintar ainda antes do fim de 2009. Até lá, continuem me acompanhando no Twitter, onde as palhaçadas seguem.
E não levem isso aqui tão a sério. É só um passatempo que deu certo.
Abraço a todos,
Capelli
Tags: Capelli, FIA, Fórmula 1, Regulamento
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A verdade está de volta
Depois de tantas patuscadas, é com alguma surpresa que recebo a notícia das regras para a Fórmula 1 em 2010, anunciadas hoje pela FIA. Não vi nenhuma maluquice, invencionice ou estupidez. Fazia tempo que isso não ocorria.
Em resumo, ficou definido que:
- Estarão proibidos os reabastecimentos durante a corrida;
- A fase final do treino de classificação acontecerá com os carros leves, acabando a babaquice de dar voltas de tanque cheio;
- Sistema de pontos para definição do campeão mantido (xô, medalhinhas do Bernie);
- Proibição de testes e KERS serão mantidos.
Embora ache que a proibição total de testes durante a temporada seja um tanto exagerada, entendo a sua motivação. O KERS poderia ter caído, não faria falta nenhuma, mas muito dinheiro foi investido no seu desenvolvimento. Então, é preciso fazer com que ele continue em uso, ainda que seja só para prestar contas.
Mas as novidades no treinos de classificação e a proibição do reabastecimento são as melhores notícias. Poder ver novamente os pilotos só com o cheiro da gasolina no carro, andando o mais rápido que podem em busca da pole position, trará mais realidade para as posições de largada. Agora o pole será pole porque é o mais rápido, não o que escolheu a estratégia mais maluca (alguém lembrou da pole de Alonso na Hungria?). O Q3 de tanque vazio traz a verdade de volta aos treinos de classificação. Isso é bom para o espetáculo, bom para o público e bom para os próprios pilotos.
E as corridas sem reabastecimento, no meu entender, mudarão bastante o panorama da Fórmula 1. Agora os pilotos não disputarão mais “mini-corridas” de 20 voltas. Será preciso poupar pneus no começo, quando o peso dos tanques cheios aumentam o desgaste. Pilotos poderão arriscar corridas sem pit stop, caso a relação composição da borracha/abrasividade da pista permita. E a gente vai saber que quem está na frente está na frente mesmo, não porque tem menos combustível, dando às corridas um ar de falsa competitividade.
Poderemos ter corridas chatas e sem ultrapassagens? É lógico que sim. Mas antes isso a um monte de trocas de posições inúteis via box. Como diz o Panda há tempos: “melhor uma corrida chata de verdade do que uma emocionante de mentira”. E, pela primeira vez em muito tempo, vejo que nenhuma das novidades visa enrolar o espectador. Se foi reflexo da briga entre FIA e FOTA, não sei. Mas a perspectiva para 2010, se não é de um campeonato emocionante – coisa que não dá para prever -, será de uma temporada pelo menos honesta. E isso já está bom demais.
FIA e FOTA, não estraguem tudo. Por favor.
Tags: FIA, FOTA, Regulamento
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Renault corre em Valência

Glenn Dunbar/LAT Photographic/Divulgação Renault
A notícia saiu hoje, mas só confirmou o que parecia óbvio. A FIA transformou a suspensão da Renault por uma corrida em uma multa de 50 mil dólares, uma advertência e quinze minutos ajoelhada no milho (tá bom, o milho é por minha conta).
É fato que a equipe francesa foi negligente em Hungaroring, permitindo que Fernando Alonso completasse uma volta no circuito com um pneu prestes a se soltar – e que acabou se soltando. Um pneu voador pode ser assustadoramente periogoso, como provou o acidente de Henry Surtees na Fórmula 2, e a atitude da Renault foi mesmo controversa.
Mas a inédita suspensão por uma corrida por “negligência” também é um insulto à inteligência de quem acompanha o esporte. Simplesmente porque é óbvio que a pena seria retirada, ninguém cometeria o suicídio econômico de deixar Fernando Alonso de fora da segunda corrida em solo espanhol na temporada. Ou alguém vai comprar ingressos para ver Jaime Alguersuari? Seria como suspender a McLaren e deixar Ayrton Senna de fora às vésperas de um GP do Brasil. Ou proibir a Ferrari de correr em Monza.
O que precisa ser lembrado, também, é o delicado relacionamento entre a FIA e as montadoras. Por mais que o novo Pacto de Concórdia esteja próximo da assinatura – se é que já não foi assinado -, nada impede que outras montadoras pulem fora do barco, como já fizeram Honda e BMW. E a ridícula punição imposta poderia ser a gota d’água que provocaria a saída da Renault da categoria. O que ainda não está de todo fora de cogitação. Vale lembrar que a seguradora ING sai de cena no fim da temporada, deixando o time sem sua cor laranja e seu sólido aporte financeiro. E não se fala em novo patrocinador.
Aliás, cabe aqui outra lembrança interessante. Nelsinho Piquet revelou dia desses, via Twitter, já saber qual a cor do carro que Alonso pilotará em 2010. Como não se sabe nem a cor do carro da Renault, se é que vai haver carro… começo a crer que o espanhol estará mesmo na vermelha Ferrari ano que vem.
Caiu!

Foto: Reprodução/Grande Prêmio
A FOTA conseguiu o que queria. Terminada a reunião do Conselho Mundial da FIA, Max Mosley declarou que não se candidatará à reeleição e que chegou a um acordo com as equipes dissidentes.
A Fórmula 1 está salva, do racha e de Mosley.
Tags: FIA, FOTA, Max Mosley
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União de ocasião

Foto: Divulgação/FOTA
Na foto acima, os donos de equipe aparecem unidos e com largos sorrisos. Dissidentes da Fórmula 1, possuem um objetivo comum: estabilizar o regulamento, tornar a categoria mais atraente, ingressos mais baratos, comando unificado e sem disputas de poder. O discurso da FOTA é muito bonitinho, só falta soar “Depende de Nós” como trilha sonora. Mas será que isso é realidade?
Em parte, sim. Porque hoje, os senhores sorridentes acima comungam sim de um mesmo objetivo: assumir o controle da Fórmula 1. Os inimigos são dois, Max Mosley e Bernie Ecclestone. Mas tal qual União Soviética e Estados Unidos na II Guerra Mundial, apenas o inimigo comum os une. E, com o fim da guerra, são grandes as chances de cada um saltar para um lado, dando início a uma temerária guerra fria.
Considerando apenas o hoje, a Fórmula 1 das dissidentes parece muito bonita. Dinheiro, patrocinadores, grandes pilotos, grandes equipes, não tem como dar errado. Mas quando estes senhores tiverem confirmado o grito de independência e dado uma banana a Bernie & Max, vai continuar assim?
Montadoras e equipes querem a vitória. E vão dar um jeito de levar vantagem de alguma forma, seja ela escusa ou não. São adversárias e, em alguns casos, até inimigas. Como conciliar toda essa gente debaixo de um mesmo teto? Tal qual num “Big Brother”, as diferenças saltarão aos olhos. E a união inicial termina rapidinho, já na definição do regulamento técnico, com cada um puxando a brasa para o seu assado. Quando chegar a hora de dividir os lucros então… será um Deus nos acuda. Barraco.
É necessário um órgão independente que arbitre os conflitos de interesse. E isso dificilmente a FOTA conseguirá. A Fórmula 1 dissidente tem tudo para implodir rapidamente, não só em função dos conflitos, mas também por razões econômicas. Historicamente, as montadoras entram e saem da categoria, de acordo com o balanço anual ou o humor dos acionistas. E se mais duas ou três resolvem debandar, como fica a tal nova categoria? Será ela financeiramente atraente a times independentes que queiram completar o grid?
O quebra-cabeças é complexo e o racha exposto ontem é o típico caso em que todo mundo tem razão e, ao mesmo tempo, não tem razão nenhuma. Mosley está certo em não deixar a FOTA ditar sozinha os rumos da Fórmula 1. A FOTA está certa em chamar Mosley de autoritário. Mosley desestabilizou a categoria com mudanças estapafúrdias de regulamento técnico e esportivo. As equipes da FOTA – leia-se montadoras – contribuíram com a implosão da F1 ao elevar os custos a níveis absurdos. Ninguém é santo nessa história e não fico ao lado de ninguém.
Todos são a doença e todos são a cura. Só é preciso entendimento. Se o racha realmente acontecer, a probabilidade é que a categoria da FOTA seja um sucesso inicial, mas que comece a rolar ladeira abaixo conforme os conflitos de interesse forem ficando cada vez maiores, até uma nova implosão. A F1 de Bernie & Max pode viver dias de inanição, mas pode em poucos anos começar a reabrigar times insatisfeitos com a briga interna da FOTA.
Ainda há esperança de que a separação não ocorra. Ambos os lados sabem que será prejudicial a todos, a questão agora é saber quem vai ceder. E se ninguém ceder, perdem todos. Principalmente, o público. Que, por mais que seja citado de forma demagógica pela FOTA, certamente não está entre as preocupações dos dissidentes.
Tags: Bernie Ecclestone, FIA, FOTA, Max Mosley
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O rei está nu
A Fórmula 1, do jeito que conhecemos hoje, acabou. Pelo menos é o que ameaçou a FOTA hoje, que depois de reunião na sede da Renault em Enstone, emitiu comunicado dizendo que vai organizar seu próprio campeonato e mandar Max Mosley lamber sabão. A nova categoria seria formada por Ferrari, McLaren, BMW Sauber, Brawn, Red Bull, Toro Rosso, Renault e Toyota.
É a afronta mais séria até agora, mas não acho que signifique o fim do mundo. Será que Max Mosley vai ser tonto de bancar um campeonato com Williams, Force India e mais oito novatas? Patrocinadores, certamente, pularão fora aos montes.
Pode acontecer? Ainda acho difícil, a menos que Mosley esteja realmente senil. Diferentemente no ocorrido quando a Indy desmembrou-se em IRL e Cart, não há equipes de um lado e equipes de outro. A Williams, que se garantiu na “F1″, tem um grande peso histórico, mas deixou de ser uma equipe grande já vão alguns anos. A Force India, com todo o respeito, é uma piada. Os dois times aliados de Mosley vão correr com que motores, se Toyota e Mercedes debandaram? A Cosworth teria condições de fornecer propulsores a todas as equipes do campeonato?
Max e Bernie estão isolados, sem nenhum apoio de peso. Se ao menos a Ferrari estivesse ao seu lado, tudo bem. Mas não está. Nessa queda de braço, são eles quem mais tem a perder. Terão um nome, mas não terão mais a essência. Desfilam uma bela roupa, mas que ninguém consegue enxergar.
A história ainda vai longe e me arrisco a dizer que só terminará quando Mosley for reeleito ou derrubado da FIA nas eleições deste final de ano. Como mais novo feliz proprietário de um império de nada, ele provavelmente acabará defenestrado. O processo todo começou com a desmoralização pública, que teve um primeiro capítulo com a orgia sadomasoquista do ano passado e que atinge um novo grau com o comunicado de hoje. A FOTA hoje disse, com outras palavras, que o rei está nu. Resta saber se Mosley continuará achando seu modelito apropriado.
Tags: Bernie Ecclestone, FIA, FOTA, Max Mosley
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Isso aqui tá bom demais

Foto: Divulgação
“Olha, isso aqui tá muito bom / Isso aqui tá bom demais / Olha, quem tá fora qué entrá / Mas quem tá dentro não sai”
Os simples e sonoros versos de Dominguinhos e Nando Cordel, num forró arretado cantado pelo sanfoneiro e por Chico Buarque que virou hit nos anos 80, caem como uma luva na situação das inscrições das equipes para a temporada 2010. Ameaçaram boicote daqui, disseram que iam criar uma categoria nova ali, mas no fim das contas todo mundo procurou garantir seu lugar na boa e velha Fórmula 1.
É uma novela repetitiva, chata e de final previsível, exatamente como as que escreve Glória Perez. Não foi a primeira vez e nem será a última em que equipes brigam com a FIA, desdenham a categoria, fazem ameaças públicas para, no final, fazerem as pazes. Tudo parte do cerimonial para conseguir alguma regalia no final.
As bases do acordo para a próxima temporada ainda não foram reveladas, talvez um acordo formal ainda não tenha sido fechado, mas é perceptível que FOTA, FIA e FOM já têm um esboço de regulamento para trabalhar, no qual não ficou ruim para ninguém. Agora basta fazer uma arte-final e divulgar.
Afinal, ninguém é doido de matar a galinha dos ovos de ouro. A lição da cisão IRL/Cart, que criou duas categorias inifinitamente menores do que a original e que hoje, após a reunificação, ainda é menor do que era há 15 anos, serve para todo mundo. Historicamente, a F1 é um campeonato de equipes de fábrica contra independentes, ou de equipes independentes impulsionadas por motores de fábricas. É assim e sempre será, às vezes com maior investimento das montadores, às vezes com menos. Mas uma categoria só de fábricas não duraria dez anos, ao passo que uma categoria só de independentes teria dificuldades em subsistir.
Se as sandices de Max Mosley trouxeram algo de divertido, foi a farta inscrição de equipes para o ano que vem. Além dos dez times que já disputam o campeonato, outros sete resolveram aparecer: USGPE, March, Lola, Prodrive, Campos, Litespeed e Superfund. Mas tantas inscrições não devem ser levadas a sério. Somente três poderão fazer parte do seleto clube e, de todas, acredito mesmo apenas no projeto da Prodrive. A Lola me parece um pouco mais séria, talvez a Campos, e o resto me cheira mais a uma aventura inconsequente. Quando ficar claro para todo mundo qual o orçamento necessário para disputar uma temporada de forma competitiva, com ou sem teto, começarão a pipocar as desistências. Talvez entrem apenas duas, ou até uma.
Mas no levantar da poeira do arrastapé da Fórmula 1, ficou claro que quem está fora quer entrar. E quem está dentro não sai de jeito nenhum.
Tags: Bernie Ecclestone, FIA, FOM, FOTA, Max Mosley, Regulamento
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A farra dos difusores
Agora que a FIA liberou geral, começou a farra dos difusores de fundo duplo na Fórmula 1. Pelo que me enviaram por e-mail o João Rodrigues e o Gabriel Nova, a Ferrari andou testando uma versão própria numa pista de aviação na Itália.

Admito que estou bem por fora do noticiário dos últimos dois dias (o motivo vocês saberão perto do GP da Espanha), então se alguém souber a fonte da imagem e quiser avisar, agradecerei. Mas a foto me parece absolutamente verdadeira, sem sinais de manipulação digital.
Sobre o veredito da FIA, não vou entrar no mérito se os difusores duplos ferem o espírito do novo regulamento ou não. Mas o que me pareceu de todo o caso foi que a entidade, mais uma vez, foi contraditória. Se for verdadeira a alegação da Renault de que apresentou esta solução à FIA no final do ano passado e recebeu um “é proibido” como resposta, os comissários não poderiam tê-la considerado legal na Austrália. Mas, em compensação, também não poderia ter proibido ontem depois de ter dado um OK para Brawn, Williams e Toyota.
Exposta a contradição, o veredito seria de toda forma incoerente e prejudicaria alguém. Em vez de prejudicar times com menor orçamento (Williams e Brawn), que provavelmente não poderiam nem competir na China caso tivessem seu carro proibido, abriram uma frente para que as grandes (McLaren, Ferrari) começassem a correr atrás do prejuízo. O problema é que, com as duas dispostas a praticamente refazer seus carros para vencer, a FIA se contradiz novamente: estimula a gastança em tempos de crise.
Não vejo mocinhos nem vilões no caso. Vejo, sim, uma entidade incoerente e atrapalhada.
Atualização: A Ferrari não testou difusor novo nenhum, a foto em questão é uma montagem. O Nickcs acabou de descobrir a foto original aqui.
Tags: Brawn, Ferrari, FIA, Regulamento, Toyota, Williams
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Positivo e negativo: Malásia
Positivo: Jenson Button e a Brawn, novamente. O piloto inglês e seu carro branco têm sido uma dupla afinada, imbatível. Em qualquer circunstância.
Negativo: FIA/FOM. Marcam uma corrida para um horário esdrúxulo, quando até as palmeiras de Sepang sabiam que havia grandes chances de chuva forte e fim de corrida por falta de luz natural. Mesmo assim arriscaram, e deu no que deu. Corrida pela metade cabe restituição de metade do ingresso para quem foi?
Tags: Brawn, FIA, GP da Malásia, Jenson Button
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Dando migué

Foto: Reprodução/Grande Prêmio
Lewis Hamilton admitiu hoje, em coletiva, que mentiu aos comissários. Tentou dar neles um verdadeiro “migué”, omitindo a informação de que teria deixado Jarno Trulli passar e deixando o italiano pronto para ser punido, como foi. Porém, o inglês tenta se defender alegando que fez isso orientado por Dave Ryan, diretor esportivo da McLaren, já devidamente afastado do cargo. Mas o fato é que, nessa história, ficou feio para todo mundo.
Ficou feio para Hamilton que, além de ter ficado com imagem de vilão-mentiroso-safado para alguns, ficou com a de mané para outros. Afinal de contas, foi muita estupidez descer do carro, contar a versão correta dos fatos para os jornalistas e depois mentir de forma deslavada aos comissários da corrida. Seria no mínimo inteligente avisar a McLaren: “olha, eu já falei a verdade, não vai colar”. Se não agiu de má-fé, foi burro. Tentou ser esperto e acabou como malandro-otário. O garoto é jovem, é perdoável. Mas não dá para negar que Hamilton já se envolveu em confusões proporcionais a seu talento, em muito pouco tempo de Fórmula 1. Sua imagem está ficando desgastada cedo demais.
Ficou péssimo para a McLaren. Com a reputação manchada desde o episódio da espionagem em 2007, mais uma vez passou a impressão de equipe desonesta. Feriu um dos princípios mais nobres do esporte, que é o fair play. É claro que não há santinhos na Fórmula 1, mas a mentira da forma como aconteceu foi um jogo sujo, baixo. E a equipe pode levar um gancho mais sério da FIA, embora não acredite que vá acontecer.
E, por fim, ficou ainda mais feio para a trapalhona FIA. Como os comissários julgam a desclassificação de um piloto baseado apenas no testemunho de Hamilton? O que Trulli disse não foi considerado por quê? Por que não avaliaram a telemetria da McLaren e da Toyota? Por que não ouviram a fita antes? Como, com duzentas câmeras espalhadas num perímetro de menos de cinco quilômetros e mais de uma câmera onboard em cada carro, não conseguiram captar o incidente e julgar de forma adequada? Tomaram uma decisão apressada, errada e sem subsídios adequados para tal.
É preciso mais seriedade, de todas as partes. No fim das contas, todos agiram como moleques. E fizeram de manés aqueles que ficam nas arquibancadas, nas poltronas e nos sofás. E, que no fim das contas, são a razão desses moleques existirem.
Conversa entre Lewis e McLaren
Tradução capellesca do diálogo entre Lewis e McLaren após o incidente com Jarno Trulli no GP da Austrália. Alguns trechos técnicos do diálogo foram suprimidos, por não serem relevantes (coisas como “freios frios, aqueça”).
Lewis Hamilton: A Toyota saiu da pista na segunda curva… isso está certo?
McLaren: Entendido, Lewis. Vamos confirmar e damos retorno a você.
Lewis: Ele estava fora da pista. Ele saiu.
McLaren: Lewis, você deve deixar a Toyota passar. Deixe passar agora.
Lewis: OK.
Lewis: Ele ficou lento, bem na minha frente.
McLaren: OK, Lewis. Fique atento, fique atento. Ele vai ultrapassá-lo. Estamos falando com Charlie [Whiting, diretor de prova].
Lewis: Eu já o deixei passar.
McLaren: OK, Lewis. Está certo. Está certo. Mantenha a posição, mantenha a posição.
Lewis: Diga a Charlie que eu o ultrapassei, mas já o deixei passar.
McLaren: Entendido. Estamos checando. (…)
Lewis: Eu não tenho que deixá-lo passar, eu deveria assumir essa posição novamente, se ele cometeu um erro.
McLaren: Sim, a gente entendeu, Lewis. Apenas faça de acordo com a regra. Estamos perguntando a Charlie agora. Você está em quarto lugar. Mantenha esta posição, apenas fique próximo.
(…)
Lewis: Alguma notícia de Charlie, posso pegar a posição de volta ou não?
McLaren: Ainda aguardando resposta, Lewis. Ainda aguardando.
(…)
McLaren: OK, Lewis, esta é a última volta da corrida. Ao final da volta o Safety Car vai entrar nos boxes, apenas cruze a linha sem ultrapassar, sem ultrapassar. Nós estamos vendo este caso do Trulli, mas apenas mantenha sua posição.
O que se pode entender: Lewis estava querendo o terceiro lugar, pois achava que tinha direito à posição. Mas deixou Trulli passar por recomendação da equipe. O problema é que a desclassificação não veio baseada neste diálogo, mas sim na mentira que Lewis teria contado aos comissários ao final da corrida, que entraria em contradição com o que realmente ocorreu.
O que eu acho muito estranho é o fato de Hamilton mentir para os comissários, como eles alegam, sabendo que existem gravações do rádio disponíveis. E outra: por que, depois da corrida, Lewis falou abertamente a jornalistas que deixou Trulli passar por um pedido da equipe? Se ele mentiu aos comissários, seria lógico que mantivesse a mentira em público.
Muito, muito estranha esta história toda.
Dois erros não fazem um acerto

Foto: Divulgação/Bridgestone
A máxima é antiga e inspira-se no contrário das propriedades da multiplicação na matemática, que diz que “menos com menos, dá mais”. Mas é fato que na vida real dois erros não fazem um acerto e a FIA parece não prestar muita atenção nisso.
Hoje, a entidade mais atrapalhada do automobilismo mundial anunciou uma inversão nas punições no GP da Austrália. Jarno Trulli teve sua pena de 25 segundos cancelada e voltou ao pódio, recuperando seus seis pontos. Até aí, tudo bem, nada mais justo dados os novos indícios que surgiram durante a semana e que ajudaram a compreender melhor o acontecido. O problema é que, não satisfeitos, resolveram eleger um culpado. Um não, dois: Lewis Hamilton e McLaren foram “banidos” da prova e tiveram suas posições retiradas.
Por mais que a FIA diga que analisou as conversas de rádio, não acredito que nelas pudesse haver algum indício que a McLaren agiu de má-fé quando recomendou que Hamilton devolvesse a posição a Trulli. Teria o engenheiro dito pelo rádio: “deixa e trouxa passar e vamos forçar uma desqualificação”? Lógico que não. E duvido que haja alguma conversa que aponte, ainda que indiretamente, num direção assim. Seria uma estratégia tão absurda que não merece sequer ser comentada.
A McLaren errou, e feio, ao ter silenciado quando a Toyota foi punida. Se realmente Lewis e McLaren cederam a posição numa atitude de fair play, jogaram todo o jogo limpo para o espaço quando viram a adversária ser desclassificada e nada fizeram para esclarecer o caso. E talvez esta atitude contraditória, quase um fair-play-pero-no-mucho, é que tenha gerado a punição. Mas fica esquisito pra caramba desclassificar alguém por isso. Uma multa, uma advertência, ainda vá. Até porque todo o imbróglio só aconteceu porque nenhum fiscal ou comissário – contratados pela própria FIA – conseguiu entender o que tinha acontecido. E nem as câmeras de televisão – controladas pela FOM, parceira carnal da FIA – conseguiram flagar o incidente.
Em última instância, a McLaren paga pela incompetência da entidade em administrar suas próprias competições. Culpam a equipe por “conduta enganosa”, quando tudo o que aconteceu foi bastante evidente, com todas as dúvidas geradas apenas pelo problema de cobertura de televisão e de cegueira de comissários. Em 2009, de erros em erros, de menos em menos, a FIA vem se esforçando cada vez mais para multiplicar a confusão.
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Atualização: A FIA acaba de divulgar em seu site o áudio e a transcrição da conversa de rádio entre Lewis e a McLaren durante o GP da Austrália. Com ela, fica evidente que Lewis realmente devolveu a posição.
Louvável a transparência da FIA em divulgar esta evidência, mas ela não é muito diferente do que já se sabia. O que justificaria a punição seria o fato de Lewis ter negado aos comissários, em conversa posterior à corrida, que tenha deixado Trulli ultrapassar. O problema é que isso não está gravado e não foi divulgado. Transparência pela metade não resolve a questão como um todo.
Regras esdrúxulas

A semana que passou foi permeada pela polêmica levantada pela brilhante dupla “Bernie & Max”, que chocou o mundo ao mudar as regras que definiam o título mundial de pilotos da Fórmula 1 a menos de dez dias do início do campeonato. Depois da reação negativa das equipes, os dirigentes da FIA e da FOM desistiram de impôr a medida e o campeonato deverá seguir como se espera: quem faz mais pontos leva o título. Porém, não é a primeira vez que Pinky e Cérebro têm ideias brilhantes, muito pelo contrário. Além de algumas regras esquisitas que chegaram a ser implantadas, ainda houve outras que, felizmente, nunca saíram do papel.
Dentre as maluquices que realmente aconteceram, ganha destaque a regra para os treinos de classificação em 2005. Para aquela temporada, foi inventada uma classificação extra aos domingos pela manhã, horas antes da corrida. As posições de largada eram definidas pela soma dos tempos da classificação de sábado e do treino extra de domingo. Uma regra difícil de acompanhar e com horários absolutamente fora do usual. O piloto dava uma volta e seu tempo precisava ser somado ao do dia anterior para saber em que posição ele largaria. Algo absolutamente esdrúxulo.
Com isso, o treino de sábado foi esvaziado, pois a reação do público foi: “para que ficar uma hora vendo uma classificação que não define nada?”. Houve queda na audiência aos sábados e as transmissões do treino de domingo na Europa tiveram uma audiência ridícula, sendo que nem sequer foram exibidos em alguns países. Por aqui, você acordava para ver a corrida e só nessa hora sabia quem largaria na frente, a não ser que tivesse disposição para levantar às cinco da manhã aos domingos, entrar na Internet e acompanhar a sessão. O sistema, obviamente, foi extinto depois de seis corridas. A partir do GP da Europa, sétima etapa do campeonato, o pole position voltou a ser definido no sábado.
Antes disso, em 2004, já haviam tentado uma alteração igualmente estúpida para a classificação. Os pilotos entravam na pista, de um em um, e davam uma volta rápida. Terminada essa fase do treino – que já durava quase 50 minutos -, os tempos obtidos indicavam a ordem na qual eles voltariam à pista para dar as voltas que realmente valeriam para a formação do grid. O mais lento era o primeiro a ir para a pista e o mais rápido era o último. No geral, o formato do treino passou a ter quase duas horas, praticamente o tamanho de uma corrida. Chato de acompanhar e inútil, ainda durante a temporada o sistema foi modificado, com os tempos de sexta passando a valer para a ordem de entrada no treino de classificação de sábado. Algo que, se não era muito lógico, pelo menos não obrigava ninguém a ficar quase duas horas vendo um carro dar uma volta na pista por vez.
Mas Bernie & Max ainda tiveram pelo menos outras duas ideias ainda mais absurdas que, felizmente, nunca passaram de balões de ensaio. Em 1989, incomodado com três vitórias consecutivas de Ayrton Senna no começo do campeonato, que se desenhava um passeio fácil do brasileiro (e acabou não sendo), Ecclestone foi a público defender uma “punição” ao vencedor. Sim, isso mesmo. Na época, não havia reabastecimento e os pit stops não eram obrigatórios. Então, Bernie passou a defender que o piloto vencedor de uma prova deveria obrigatoriamente fazer uma parada para troca de pneus na corrida seguinte. Se vencesse duas seguidas, deveria parar duas vezes na prova seguinte. Se ganhasse três, então três pit stops, até que finalmente parasse de ganhar. Fico imaginando essa regra em 2004, Schumacher seria capaz de vencer corridas até com seis paradas de box.
E a cereja do bolo veio da mente brilhante de Max Mosley, em 2002. Depois de um ano de domínio absoluto da dupla Ferrari/Schumacher, o presidente da FIA passou a defender um “rodízio de pilotos”. Antes de cada corrida, pilotos e equipes seriam sorteados aleatoriamente. Seria possível ver Schumacher na Minardi, Montoya na Jaguar, Alex Yoong na Ferrari. De tão absurda, a ideia nem foi levada a sério e logo foi esquecida. Mas suscita um pensamento preocupante: é na mão destes sujeitos que está a maior categoria do automobilismo mundial. Se ela sobreviver a eles, sobreviverá a qualquer outra coisa.
Fim da polêmica
Acuada pela pressão das equipes, pilotos e opinião pública, a FIA mudou de ideia e resolveu “adiar” o sistema de classificação “só vitórias” para 2010. Digo adiar entre aspas porque, na prática, acho difícil que ele seja realmente implantado. A rejeição foi muito grande e a FOTA, desde o início, posicionou-se contra a medida autoritária e antipopular. A única voz dissonante foi a de Flavio Briatore, mas como o italiano adora criar polêmica e está de olho na sucessão de Bernie Ecclestone, não serve como parâmetro.
Ainda que por linhas tortas, o bom-senso venceu. Mas o fato vai deixar fortes cicatrizes, a chaga da queda-de-braço FOTA x FIA está exposta. E a entidade máxima do automobilismo mundial nunca esteve em posição tão fragilizada desde o grande racha de 1982. Em condições normais, Mosley e Ecclestone bateriam firme o pé. Se recuaram tão rápido, é porque estão na defensiva. E o assunto não será esquecido até a assinatura do próximo Pacto de Concórdia. Se é que ele virá.
Pensamento do dia
Na Fórmula 1 de Max Mosley, o pole position não é o mais rápido e quem tem mais pontos não é o campeão mundial.
Saudades do Balestre, viu…
Fragilizando a liderança

Foto: Arquivo
Quanto mais penso no novo regulamento da Fórmula 1, mais enxergo um tiro que sai pela culatra. Vislumbrando um cenário em que apenas a vitória importa e que o segundo lugar de nada vale, fica cada vez mais clara para mim a ideia de que a FIA, indiretamente, passará a fragilizar aquele que está na liderança de uma corrida.
Pensemos. É preciso vencer para ser campeão. Ser segundo colocado, de nada vale. Assim, monta-se uma situação na qual alguém que está andando em segundo em uma corrida não tem nada a perder. E o líder, aquele que deveria ter total controle da situação, passa a ser um alvo. “É melhor eliminar o primeiro do que ser segundo”, li em algum lugar. E é uma triste verdade.
Não imagino um mau-caratismo latente nos pilotos, não creio que tentarão eliminar os adversários propositalmente. Porém, quem estiver em segundo terá todas as condições do mundo para tentar uma ultrapassagem impossível, poderá forçar, deixar o líder em uma situação desconfortável. Fechar a porta numa briga pela liderança poderá ser uma atitude suicida, já que um toque que elimine ambos da prova trará prejuízos apenas àquele que estava em primeiro. Talvez seja até melhor estar em segundo na fase final da corrida, desde que o líder esteja próximo, do que andar em primeiro lugar e não ter o controle da situação.
Isso aumenta a emoção? Sem dúvida. Mas gera uma desigualdade perigosa, estimulará uma concorrência negativa, senão até desleal. Se Fernando Alonso e Felipe Massa andaram se estranhando em 2007 nos GPs da Espanha e da Europa por disputas um tanto duras por posição, ainda que leais, imagine o que pode vir a acontecer numa situação em que um piloto jogue o outro para fora. Num extremo, o panorama poderá ser caótico. Poderemos viver a era do mata-mata na Fórmula 1.
Estimular a agressividade é um erro. Talvez os maus exemplos do passado, protagonizados por Alain Prost, Ayrton Senna e Michael Schumacher não tenham servido de lição. A FIA está brincando com coisa muito séria.
Petição contra o novo regulamento
Thiago Leopoldo avisa via comentários: já existe um abaixo-assinado online contrário ao novo regulamento para definição do campeão mundial de Fórmula 1. Se você é contra, assine clicando aqui.
Honestamente, acho que não vai dar em nada. Mas não foi a FIA quem fez uma pesquisa para saber o que o público queria? A maioria disse que era a favor de mudanças e que preferia que a vitória fosse mais recompensadora. Mas precisavam levar tão ao pé-da-letra?
Se a FIA quer resposta do público, terá. Em poucos minutos, já há mais de 1.400 assinaturas de todo o mundo.



