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A verdade está de volta

Depois de tantas patuscadas, é com alguma surpresa que recebo a notícia das regras para a Fórmula 1 em 2010, anunciadas hoje pela FIA. Não vi nenhuma maluquice, invencionice ou estupidez. Fazia tempo que isso não ocorria.

Em resumo, ficou definido que:

- Estarão proibidos os reabastecimentos durante a corrida;
- A fase final do treino de classificação acontecerá com os carros leves, acabando a babaquice de dar voltas de tanque cheio;
- Sistema de pontos para definição do campeão mantido (xô, medalhinhas do Bernie);
- Proibição de testes e KERS serão mantidos.

Embora ache que a proibição total de testes durante a temporada seja um tanto exagerada, entendo a sua motivação. O KERS poderia ter caído, não faria falta nenhuma, mas muito dinheiro foi investido no seu desenvolvimento. Então, é preciso fazer com que ele continue em uso, ainda que seja só para prestar contas.

Mas as novidades no treinos de classificação e a proibição do reabastecimento são as melhores notícias. Poder ver novamente os pilotos só com o cheiro da gasolina no carro, andando o mais rápido que podem em busca da pole position, trará mais realidade para as posições de largada. Agora o pole será pole porque é o mais rápido, não o que escolheu a estratégia mais maluca (alguém lembrou da pole de Alonso na Hungria?). O Q3 de tanque vazio traz a verdade de volta aos treinos de classificação. Isso é bom para o espetáculo, bom para o público e bom para os próprios pilotos.

E as corridas sem reabastecimento, no meu entender, mudarão bastante o panorama da Fórmula 1. Agora os pilotos não disputarão mais “mini-corridas” de 20 voltas. Será preciso poupar pneus no começo, quando o peso dos tanques cheios aumentam o desgaste. Pilotos poderão arriscar corridas sem pit stop, caso a relação composição da borracha/abrasividade da pista permita. E a gente vai saber que quem está na frente está na frente mesmo, não porque tem menos combustível, dando às corridas um ar de falsa competitividade.

Poderemos ter corridas chatas e sem ultrapassagens? É lógico que sim. Mas antes isso a um monte de trocas de posições inúteis via box. Como diz o Panda há tempos: “melhor uma corrida chata de verdade do que uma emocionante de mentira”. E, pela primeira vez em muito tempo, vejo que nenhuma das novidades visa enrolar o espectador. Se foi reflexo da briga entre FIA e FOTA, não sei. Mas a perspectiva para 2010, se não é de um campeonato emocionante – coisa que não dá para prever -, será de uma temporada pelo menos honesta. E isso já está bom demais.

FIA e FOTA, não estraguem tudo. Por favor.

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Caiu!

Foto: Reprodução/Grande Prêmio

Foto: Reprodução/Grande Prêmio

A FOTA conseguiu o que queria. Terminada a reunião do Conselho Mundial da FIA, Max Mosley declarou que não se candidatará à reeleição e que chegou a um acordo com as equipes dissidentes.

A Fórmula 1 está salva, do racha e de Mosley.

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União de ocasião

Foto: Divulgação/FOTA

Foto: Divulgação/FOTA

Na foto acima, os donos de equipe aparecem unidos e com largos sorrisos. Dissidentes da Fórmula 1, possuem um objetivo comum: estabilizar o regulamento, tornar a categoria mais atraente, ingressos mais baratos, comando unificado e sem disputas de poder. O discurso da FOTA é muito bonitinho, só falta soar “Depende de Nós” como trilha sonora. Mas será que isso é realidade?

Em parte, sim. Porque hoje, os senhores sorridentes acima comungam sim de um mesmo objetivo: assumir o controle da Fórmula 1. Os inimigos são dois, Max Mosley e Bernie Ecclestone. Mas tal qual União Soviética e Estados Unidos na II Guerra Mundial, apenas o inimigo comum os une. E, com o fim da guerra, são grandes as chances de cada um saltar para um lado, dando início a uma temerária guerra fria.

Considerando apenas o hoje, a Fórmula 1 das dissidentes parece muito bonita. Dinheiro, patrocinadores, grandes pilotos, grandes equipes, não tem como dar errado. Mas quando estes senhores tiverem confirmado o grito de independência e dado uma banana a Bernie & Max, vai continuar assim?

Montadoras e equipes querem a vitória. E vão dar um jeito de levar vantagem de alguma forma, seja ela escusa ou não. São adversárias e, em alguns casos, até inimigas. Como conciliar toda essa gente debaixo de um mesmo teto? Tal qual num “Big Brother”, as diferenças saltarão aos olhos. E a união inicial termina rapidinho, já na definição do regulamento técnico, com cada um puxando a brasa para o seu assado. Quando chegar a hora de dividir os lucros então… será um Deus nos acuda. Barraco.

É necessário um órgão independente que arbitre os conflitos de interesse. E isso dificilmente a FOTA conseguirá. A Fórmula 1 dissidente tem tudo para implodir rapidamente, não só em função dos conflitos, mas também por razões econômicas. Historicamente, as montadoras entram e saem da categoria, de acordo com o balanço anual ou o humor dos acionistas. E se mais duas ou três resolvem debandar, como fica a tal nova categoria? Será ela financeiramente atraente a times independentes que queiram completar o grid?

O quebra-cabeças é complexo e o racha exposto ontem é o típico caso em que todo mundo tem razão e, ao mesmo tempo, não tem razão nenhuma. Mosley está certo em não deixar a FOTA ditar sozinha os rumos da Fórmula 1. A FOTA está certa em chamar Mosley de autoritário. Mosley desestabilizou a categoria com mudanças estapafúrdias de regulamento técnico e esportivo. As equipes da FOTA – leia-se montadoras – contribuíram com a implosão da F1 ao elevar os custos a níveis absurdos. Ninguém é santo nessa história e não fico ao lado de ninguém.

Todos são a doença e todos são a cura. Só é preciso entendimento. Se o racha realmente acontecer, a probabilidade é que a categoria da FOTA seja um sucesso inicial, mas que comece a rolar ladeira abaixo conforme os conflitos de interesse forem ficando cada vez maiores, até uma nova implosão. A F1 de Bernie & Max pode viver dias de inanição, mas pode em poucos anos começar a reabrigar times insatisfeitos com a briga interna da FOTA.

Ainda há esperança de que a separação não ocorra. Ambos os lados sabem que será prejudicial a todos, a questão agora é saber quem vai ceder. E se ninguém ceder, perdem todos. Principalmente, o público. Que, por mais que seja citado de forma demagógica pela FOTA, certamente não está entre as preocupações dos dissidentes.

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O rei está nu

A Fórmula 1, do jeito que conhecemos hoje, acabou. Pelo menos é o que ameaçou a FOTA hoje, que depois de reunião na sede da Renault em Enstone, emitiu comunicado dizendo que vai organizar seu próprio campeonato e mandar Max Mosley lamber sabão. A nova categoria seria formada por Ferrari, McLaren, BMW Sauber, Brawn, Red Bull, Toro Rosso, Renault e Toyota.

É a afronta mais séria até agora, mas não acho que signifique o fim do mundo. Será que Max Mosley vai ser tonto de bancar um campeonato com Williams, Force India e mais oito novatas? Patrocinadores, certamente, pularão fora aos montes.

Pode acontecer? Ainda acho difícil, a menos que Mosley esteja realmente senil. Diferentemente no ocorrido quando a Indy desmembrou-se em IRL e Cart, não há equipes de um lado e equipes de outro. A Williams, que se garantiu na “F1″, tem um grande peso histórico, mas deixou de ser uma equipe grande já vão alguns anos. A Force India, com todo o respeito, é uma piada. Os dois times aliados de Mosley vão correr com que motores, se Toyota e Mercedes debandaram? A Cosworth teria condições de fornecer propulsores a todas as equipes do campeonato?

Max e Bernie estão isolados, sem nenhum apoio de peso. Se ao menos a Ferrari estivesse ao seu lado, tudo bem. Mas não está. Nessa queda de braço, são eles quem mais tem a perder. Terão um nome, mas não terão mais a essência. Desfilam uma bela roupa, mas que ninguém consegue enxergar.

A história ainda vai longe e me arrisco a dizer que só terminará quando Mosley for reeleito ou derrubado da FIA nas eleições deste final de ano. Como mais novo feliz proprietário de um império de nada, ele provavelmente acabará defenestrado. O processo todo começou com a desmoralização pública, que teve um primeiro capítulo com a orgia sadomasoquista do ano passado e que atinge um novo grau com o comunicado de hoje. A FOTA hoje disse, com outras palavras, que o rei está nu. Resta saber se Mosley continuará achando seu modelito apropriado.

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Isso aqui tá bom demais

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

“Olha, isso aqui tá muito bom / Isso aqui tá bom demais / Olha, quem tá fora qué entrá / Mas quem tá dentro não sai”

Os simples e sonoros versos de Dominguinhos e Nando Cordel, num forró arretado cantado pelo sanfoneiro e por Chico Buarque que virou hit nos anos 80, caem como uma luva na situação das inscrições das equipes para a temporada 2010. Ameaçaram boicote daqui, disseram que iam criar uma categoria nova ali, mas no fim das contas todo mundo procurou garantir seu lugar na boa e velha Fórmula 1.

É uma novela repetitiva, chata e de final previsível, exatamente como as que escreve Glória Perez. Não foi a primeira vez e nem será a última em que equipes brigam com a FIA, desdenham a categoria, fazem ameaças públicas para, no final, fazerem as pazes. Tudo parte do cerimonial para conseguir alguma regalia no final.

As bases do acordo para a próxima temporada ainda não foram reveladas, talvez um acordo formal ainda não tenha sido fechado, mas é perceptível que FOTA, FIA e FOM já têm um esboço de regulamento para trabalhar, no qual não ficou ruim para ninguém. Agora basta fazer uma arte-final e divulgar.

Afinal, ninguém é doido de matar a galinha dos ovos de ouro. A lição da cisão IRL/Cart, que criou duas categorias inifinitamente menores do que a original e que hoje, após a reunificação, ainda é menor do que era há 15 anos, serve para todo mundo. Historicamente, a F1 é um campeonato de equipes de fábrica contra independentes, ou de equipes independentes impulsionadas por motores de fábricas. É assim e sempre será, às vezes com maior investimento das montadores, às vezes com menos. Mas uma categoria só de fábricas não duraria dez anos, ao passo que uma categoria só de independentes teria dificuldades em subsistir.

Se as sandices de Max Mosley trouxeram algo de divertido, foi a farta inscrição de equipes para o ano que vem. Além dos dez times que já disputam o campeonato, outros sete resolveram aparecer: USGPE, March, Lola, Prodrive, Campos, Litespeed e Superfund. Mas tantas inscrições não devem ser levadas a sério. Somente três poderão fazer parte do seleto clube e, de todas, acredito mesmo apenas no projeto da Prodrive. A Lola me parece um pouco mais séria, talvez a Campos, e o resto me cheira mais a uma aventura inconsequente. Quando ficar claro para todo mundo qual o orçamento necessário para disputar uma temporada de forma competitiva, com ou sem teto, começarão a pipocar as desistências. Talvez entrem apenas duas, ou até uma.

Mas no levantar da poeira do arrastapé da Fórmula 1, ficou claro que quem está fora quer entrar. E quem está dentro não sai de jeito nenhum.

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