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Ferrari de cara nova

A Ferrari divulgou ontem as primeiras imagens de seus carros e seus pilotos para a temporada 2010. O carro, obviamente, ainda é o F60 da temporada passada, mas a pintura já é nova.

À primeira vista, os aerofólios brancos causam um certo choque, mas vão ficando mais bonitos à medida em que a visão se acostuma. Eu, pelo menos, gostei. O novo visual surpreende, pois sendo o vermelho a cor predominante da logomarca do Banco Santander, imaginava-se que a pintura seria toda vermelha. Mas a escolha faz sentido. Exibida em fundo branco, a marca acaba chamando mais a atenção, contrastando com o restante do carro. Inteligente sacada.

Massa e Alonso apresentam as novas vestes

Foto: Divulgação/Ferrari

Vale lembrar que a presença de branco nos bólidos da Ferrari não chega a ser nenhuma heresia. O carro do título de Niki Lauda em 1975 tinha bastante branco nas laterais. Em 1993, a equipe também adotou uma larga faixa branca ao longo da carenagem. E nos anos 2000, os aerofólios também eram brancos por causa dos patrocínios da Marlboro e da Vodafone. Mas como a marca de cigarros aparecia em preto, não chamava tanto a atenção.

Novidades também nos macacões dos pilotos. Felipe Massa e Fernando Alonso aparecem com um novo desenho, incluindo mais branco. Algo que, historicamente, não chega a ser estranho. Nos anos 70 e começo dos 80, as vestes dos pilotos nem sequer eram vermelhas. Gilles Villeneuve costumava correr de branco e Niki Lauda, de azul.

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Momentos importantes que você não viu… porque ninguém mostrou!

Transmitir uma prova automobilística pela televisão é uma tarefa complicada. São necessárias dezenas de câmeras, centenas de profissionais e, principalmente, um operador de switcher muito atento, para garantir que o telespectador não vá perder momentos importantes de uma corrida ou treino de classificação.

O trabalho é duro e nem sempre houve as facilidades de hoje, com muitas câmeras espalhadas por todo o circuito, onboards em todos os carros e mesas digitais de última geração. Quando as transmissões ao vivo começaram, no começo dos anos 70, a infraestrutura era ainda muito precária e muitos momentos da corrida precisavam ser interpretados pelo narrador ou por quem assistia, dada a impossibilidade de exibir tudo o que estava acontecendo.

No entanto, mesmo com a melhora consistente das transmissões a partir dos anos 80, muitos momentos importantes, alguns históricos, simplesmente não foram registrados. Seja por uma distração do câmera ou por um erro de leitura do diretor de transmissão, o fato é que há momentos da Fórmula 1 dos últimos anos que ninguém nunca viu. E o Blog do Capelli relembra quatro importantes cenas inéditas da categoria. E que assim permanecerão.


4. Acidente de Gilles Villeneuve – 1982

Foto: Reprodução/TV

Foto: Reprodução/TV

Ídolo ferrarista, Gilles Villeneuve perdeu a vida a bordo de um dos carros vermelhos, num acidente com Jochen Mass durante os treinos para o GP da Bélgica de 1982. O canadense tentou ultrapassar a March do piloto alemão, que vinha em volta de desaceleração, mas acabou batendo sua roda dianteira esquerda na traseira direita do adversário. Com isso, o carro decolou e deu diversas piruetas no ar. Quando caiu no chão, já bastante destruído, o piloto foi ejetado do cockpit, sendo lançado contra o guard-rail.

O final do acidente, com o corpo inerte de Villeneuve voando, foi registrado e mundialmente difundido. Mas o choque entre os carros e o vôo fatal da Ferrari nunca foram vistos, pois o câmera não percebeu o que ocorria, mantendo no quadro o lento carro de Mass. Apenas no canto esquerdo do quadro percebe-se, sutilmente, o carro de Villeneuve subindo. E, depois, a imagem segue acompanhando a March.

Importante lembrar que não foi o impacto com o guard rail que tirou a vida de Villeneuve. Tal pancada apenas provocou-lhe uma fratura na clavícula. A causa mortis foi o estrangulamento por um cinto de segurança mal posicionado durante as piruetas que dava no ar. Justamente as cenas que não foram registradas.


3. Acidente de Roland Ratzenberger – 1994

Foto: Reprodução/TV

Foto: Reprodução/TV

Outro acontecimento importante mal registrado pelas câmeras que acompanhavam um treino de classificação. Em 1982, com poucos recursos, a falha poderia até ser justificada. Mas, 12 anos depois, ninguém conseguiu ver exatamente o que aconteceu com a Simtek de Roland Ratzenberger.

O piloto austríaco perdeu o controle de seu carro na curva Villeneuve, no circuito de Imola, durante o treino classificatório para o fatídico GP de San Marino de 1994. Passou reto, de forma inexplicável, até chocar-se contra o muro de contenção. Ratzenberger morreu com lesões neurológicas, mas ninguém conseguiu entender bem como o acidente aconteceu.

Mais tarde, viria a explicação: a Simtek teria perdido uma asa dianteira, deixando o carro absolutamente fora de controle. O problema é que nenhuma imagem retrata em detalhes o momento em que a asa se desprendeu. A hipótese da perda do aerofólio surgiu através de uma cena parcial, registrada por acaso. Uma câmera, apontada para a curva Tamburello, registrou a passagem da Simtek, mas ficou parada, aguardando o próximo carro. Até que, no canto superior direito do quadro, surge um pedaço de carenagem voando.

Supõe-se que é o registro da perda da asa dianteira, algo que nunca foi confirmado. Aquela carenagem pode ter se soltado quando o carro saiu da pista e entrou pela grama. Dados de telemetria confirmaram que Ratzenberger realmente perdeu pressão aerodinâmica na frente, deixando o carro sem controle. Mas a asa que aparece na imagem é motivo ou consequência do acidente? Nunca se saberá.


2. Batida de Senna em Mônaco – 1988

Foto: Reprodução/TV

Foto: Reprodução/TV

O acidente de Ayrton Senna no GP de Mônaco foi decisivo para que o brasileiro conquistasse o título de 1988, por mais paradoxal que possa parecer.

Senna liderava a corrida com folga, com quase um minuto de vantagem sobre Alain Prost, seu companheiro na McLaren e então líder do campeonato mundial. A vitória parecia simples e era só questão de tempo. Até que, a 12 voltas do fim, o brasileiro distraiu-se, perdeu o controle do carro e bateu no guard-rail externo da curva Portier, que leva ao famoso túnel do circuito de Monte Carlo.

O abandono foi decisivo na briga pelo título porque foi, a partir dali, que Senna tornou-se um piloto mais cerebral. Percebeu que velocidade pura apenas não bastava – coisa que Nigel Mansell, por exemplo, não aprendeu nunca – e passou a administrar suas corridas com mais inteligência e foco no resultado. Fez daquele insucesso um aprendizado que lhe garantiu uma carreira de tricampeão do mundo.

O grande problema é que, um momento tão importante da história da Fórmula 1, nunca foi registrado. As únicas cenas existentes são do carro de Senna parado já com o brasileiro fora do carro, retirando o capacete e deixando a pista muito irritado com a besteira que fez. Para sua sorte, ninguém testemunhou a burrada.


1. Problema de Mansell em Mônaco – 1992

Foto: Reprodução/TV

Foto: Reprodução/TV

Essa fica em primeiro lugar porque foi, certamente, uma das maiores trapalhadas em uma transmissão de Fórmula 1 em todos os tempos. Nigel Mansell dominava tranquilamente o GP de Mônaco de 1992, até que cometeu um erro e tocou um de seus pneus em um guard-rail, dentro do túnel.

O pneu furou, Mansell ficou lento, chamou sua equipe pelo rádio e avisou que precisaria de uma troca. A Williams se preparou, o inglês entrou nos boxes, trocou pneus e voltou em segundo lugar, dando a liderança a Ayrton Senna.

Até aí, um acontecimento absolutamente normal em corrida. O problema: a transmissão não exibiu absolutamente nada! Distraídos com a briga pelo terceiro lugar entre Riccardo Patrese e Michael Schumacher, os responsáveis pelo corte de imagem não viram nada do que aconteceu. Mansell era o líder e, de repente, apareceu em segundo. Do nada, os créditos da televisão passaram a mostrar Senna em primeiro lugar, o que inicialmente parecia um erro. Não era. O Leão tinha ficado para trás e começou ali uma das mais emocionantes disputas pela vitória em Mônaco, um final de corrida épico com Mansell tentando passar e Senna segurando, nas últimas voltas. Mas os responsáveis por mostrar o GP de Mônaco para o mundo não devem ter descoberto até hoje como a briga se originou.

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Um momento angustiante

Há duas semanas, quando preparei aquele Quiz do Capelli, lembrei de um fato envolvendo o atropelamento de um mecânico da equipe Arrows por um carro da própria equipe. Dentre todas as respostas do quiz, foi uma das menos acertadas e que gerou alguns e-mails de leitores questionando sobre o acidente. Assim, tive a ideia para este post.

Foi um momento absolutamente angustiante. Não só pelo fato em si, mas também por todo o contexto no qual esteve envolvido. Assim como no GP de San Marino de 1994, quando uma sucessão de fatos trágicos aparentemente não relacionados aconteceu de forma inacreditável, uma aura negativa cobria aquele final de semana em Zolder, no GP da Bélgica de 1981.

Durante o treino de classificação de sexta-feira, Carlos Reutemann, da Williams, havia atropelado um mecânico da eqiupe Osella, Giovanni Amadeo. O pit lane de Zolder era demasiado apertado e mais hora menos hora, algo assim viria a acontecer. No final da sessão, Amadeo atravessou o pit lane sem perceber a presença de Reutemann, que entrava rápido, mas dentro dos limites de velocidade regulamentares. O mecânico foi atingido por um dos pneus traseiros da Williams, sendo que Reutemann nem percebeu o que havia acontecido. Há inclusive relatos de que o mecânico teria escorregado e caído por sobre o carro que passava, o que explicaria o estranho acidente. Com traumatismo craniano severo, Amadeo foi levado ao hospital em estado grave.

Todo o sábado transcorreu com uma aura ruim e com a informação de que o mecânico estava em coma profundo. Na madrugada de domingo, chega a notícia do diagnóstico de morte cerebral. A Fórmula 1 ficou de luto.

Minutos antes do começo da corrida, mecânicos de diversas equipes resolvem fazer um protesto em frente ao grid de largada, exigindo mais segurança nos pit lanes. Alguns pilotos juntam-se ao movimento, entre eles Gilles Villeneuve, Didier Pironi e Jacques Laffite. Outros ficam batendo boca com os mecânicos, exigindo liberação da pista para que a prova possa iniciar.

Nisso, a direção de prova autoriza o início da volta de apresentação, mesmo com vários pilotos fora de seus carros. O cenário é de caos, mas os carros partem sem maiores incidentes. O problema é que, ao alinhar seu carro para a largada, Nelson Piquet erra a sua posição. A direção de prova permite que ele parta para uma segunda volta de apresentação, enquanto todos os outros carros ficam esperando no grid.

Quando Piquet finalmente alinha, a largada é autorizada. Mas o motor da Arrows de Riccardo Patrese não aguenta um minuto e meio em ponto morto e apaga. Parado no grid, o italiano começa a agitar os braços, e eis que um mecânico seu, Dave Luckett, invade a pista para acionar seu motor novamente.

E aí começam momentos de agonia. Imagine um carro parado no grid, correndo o risco de ser atingido por alguém que vem mais veloz atrás. Agora imagine este carro parado com um mecânico atrás. O provável acontece: outro carro vem e atinge a Arrows de Patrese em cheio, com Luckett no meio. Ironicamente, a outra Arrows inscrita para a prova, do italiano (sim, italiano!) Siegfried Stohr.

A cena é chocante: o mecânico está estirado no chão, desmaiado e com as pernas fora de esquadro. Todos temem pelo pior. E Stohr é o próprio retrato do desespero. Tenta sair do carro, tropeça, quase cai, leva as mãos à cabeça e gesticula sem parar, como que dizendo: “o que eu fiz? o que eu fiz?”.

Passado o susto, Luckett é atendido e seu estado, felizmente, não é grave. Ele tem fraturas nas pernas, mas não corre risco de vida. Assim, a corrida reinicia normalmente, mas sem as duas Arrows. Foi apenas um grande susto, causado por absoluta incompetência da organização da prova, que conseguiu fazer uma besteira atrás da outra.

As marcas do acidente, no entanto, não se apagaram para Siegfried Stohr. Mesmo sendo um psicólogo formado, o italiano não reagiu bem ao fato de quase ter matado um mecânico da própria equipe. Perdeu a velocidade que tinha e nunca mais competiu em bom nível. Nos treinos para o GP da Itália, sofreu um acidente e optou por abandonar as pistas definitivamente. E Luckett, felizmente, vive sem sequelas daquele dramático acidente.

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Pergunte ao Capelli: Temporada 1979

Foto: Arquivo

Foto: Arquivo

“Capelli, tenho dúvidas com relação à temporada de 1979. A Ferrari dominou todo o campeonato, com Gilles Villeneuve e Jody Scheckter. Mas a equipe boicotou o canadense, ídolo da torcida, o obrigando a ceder posição e o título mundial para Scheckter no GP da Itália. Por que a Ferrari fez isso com Villeneuve? Só para ser campeã em casa?” – Zé Pedro, São Paulo/SP

Zé, bastante pertinente a pergunta, até porque nela estão contidos alguns mitos que, de tanto serem contados, já ganharam ares de verdade. Vai gerar um post longo, mas que acho que vale a pena, Em partes, então.

Domínio da Ferrari

Apesar da dobradinha na classificação final do campeonato, a temporada não foi um mar de rosas para a equipe italiana. Nas duas primeiras provas, com o carro do ano anterior, a Ferrari não foi páreo para as Ligier, que assombraram vencendo na Argentina e no Brasil, com Jacques Laffite.

Com a estreia do novo carro, na África do Sul, a escuderia deu um salto de qualidade e passou a dominar as etapas seguintes, beneficiada pela acentuada queda da Lotus, que dominara o campeonato anterior mas via-se às voltas com o fracassado modelo 80. Mas a Ferrari não liderava as provas de maneira absoluta, sofrendo forte pressão da Renault com seu inovador motor turbo, que andava uma barbaridade, mas quebrava sempre.

E, a partir da metade do campeonato, uma nova força surgiu: a Williams. Embora nunca tivesse até então vencido uma única corrida, o jovem time de Frank Williams e Patrick Head acertou a mão com o FW07, uma cópia bem-sucedida do Lotus 79. O time passou a empilhar vitórias com Alan Jones e Clay Regazzoni, sendo cinco em seis provas na segunda metade do ano, quatro delas consecutivas. Não fossem as regras de descarte bastante peculiares naquele campeonato, a Williams poderia ter ingressado forte na luta pelo título mundial.

Assim, forma-se um cenário que ajuda a entender o episódio do GP da Itália. Nem de longe foi um campeonato folgado e sossegado como os de 2002 e 2004, nos quais poderia ter escolhido o piloto campeão com facilidade, tamanho seu domínio sobre os rivais. Foi um campeonato duro, repleto de adversários que mudavam prova a prova.

Pontuação do campeonato

A temporada de 1979 foi particularmente especial no que diz respeito à pontuação. Na época, a regra de descartes era praxe, mas geralmente restritos aos dois piores resultados da primeira metade e aos dois da segunda metade. Em alguns casos, apenas um resultado era descartado em cada metade de temporada. Porém, a ideia de beneficiar a vitória em detrimento da regularidade ganhou contornos exagerados naquele ano. Com 15 etapas, decidiu-se que apenas oito resultados valeriam para o Mundial de Pilotos.

Assim, praticamente metade dos resultados seriam descartados, gerando um campeonato completamente diferente. Das sete primeiras corridas, três seriam ignoradas. Das oito seguintes, quatro não valiam. Tal excesso de descartes terminou por gerar situações insólitas, como o ocorrido com Carlos Reutemann. O argentino da Lotus precisou descontar um quarto e um quinto lugares, obtidos na Bélgica e na África do Sul, na primeira metade do ano, tudo porque pontuou seis vezes num período em que somente quatro resultados eram válidos. Na segunda parte da temporada, Reutemann foi mal e não marcou um ponto sequer mas, ainda assim, teve aqueles cinco pontos descontados no final.

Foi tal regra que encerrou qualquer possibilidade dos pilotos da Williams brigarem pelo título mundial, ainda que tenham dominado absolutamente a segunda metade do ano. Mesmo que Alan Jones tivesse ganho as oito corridas, chegando a 72 pontos (a vitória na época valia 9), somaria somente 36. Um número muito baixo para poder brigar pelo campeonato. Tendo somado apenas seis pontos com Regazzoni e quatro com Jones na primeira metade do ano, a Williams estava precocemente alijada da disputa.

A arrancada de Scheckter

E foi justamente essa regra que direcionou logo cedo o título de 1979 para Jody Scheckter. Na primeira metade da temporada, o sul-africano conquistou duas vitórias e dois segundos lugares, totalizando 30 pontos em 36 possíveis. Ele chegou inclusive a descartar um sexto no Brasil e um quarto na Espanha.

Gilles Villeneuve somou apenas 20 pontos, com duas vitórias e um quinto. Dessa forma, ele partia para as últimas oito corridas do ano com a missão de descontar uma diferença de 10 pontos, sendo que havia apenas 36 em jogo e seu adversário ainda poderia jogar fora metade dos resultados que ainda estavam por vir. Assim, o título do canadense já estava severamente comprometido. Bastava a Scheckter uma vitória e três segundos lugares em oito corridas para eliminar Villeneuve da disputa. Um cenário bastante confortável.

O episódio do GP da Itália

Quando a corrida de Monza chegou, o título já estava praticamente nas mãos de Jody Scheckter. O sul-africano já estava com mais 14 pontos somados (um segundo, dois quartos e um quinto), enquanto que Villeneuve tinha somado apenas mais 12 (dois segundos). No total, Scheckter já tinha 44 pontos garantidos, enquanto que o canadense não poderia mais ir além de 53, ainda que vencesse tudo até o final. Ou seja, Jody precisava abrir apenas mais nove pontos (uma vitória) em três corridas para dar a fatura como liquidada.

Assim, houve uma espécie de consenso dentro da Ferrari de que seria adequado encerrar a disputa do campeonato em Monza. As chances de Villeneuve eram remotas, para não dizer praticamente inexistentes. Era a última corrida na Europa e levar uma disputa de título para as etapas finais no Canadá e nos Estados Unidos traria custos e riscos adicionais. Oficialmente, a Ferrari não fez nenhum trato aberto com os pilotos, sabe-se apenas que o Comendador Enzo direcionou conselhos a Gilles Villeneuve. E aqui vale um registro de que o relacionamento entre ambos não era apenas profissional e frio, não era um negócio como hoje em dia. Enzo e Gilles nutriam uma admiração mútua e tinham uma relação respeitosa, quase que de pai e filho. Assim, é possível imaginar um conselho do tipo: “Gilles, Scheckter será campeão hoje. E o ano que vem será seu.”

E assim quase foi. Villeneuve fez a sua parte e somente acompanhou Scheckter durante a corrida. Aliás, diferente do que costumeiramente é dito, Gilles apenas não o ultrapassassou, não houve uma cessão de posição patética, como ocorreria mais de vinte anos depois entre Barrichello e Schumacher. O sul-africano dominou praticamente a corrida toda e foi comboiado por seu companheiro de equipe, que não rebaixou-se ao humilhante papel de entregar uma vitória na última curva. Foi um acordo tácito entre cavalheiros, sem que ninguém hesitasse em fazer o que achava correto, cada um bastante ciente de seu papel dentro da equipe naquele momento. Elegante, Gilles ainda foi elogioso após a corrida:

“Não dei nenhum presente a Jody, tentei de tudo e tenho que dizer que Jody hoje esteve intocável”.

Retrato de outros tempos. Mas o final não é de todo feliz. Diferentemente do que a Ferrari imaginava, o campeonato de 1980 foi um desastre e Scheckter não teve nenhuma chance de retribuir a gentileza de Villeneuve. Foi a pior temporada da história da equipe, que não fez nenhum pódio e marcou apenas oito pontos, terminando o Mundial de Construtores num humilhante 10º lugar.

Scheckter aposentou-se, Gilles seguiu na Ferrari e virou ídolo por atuações tão emocionantes quanto irregulares nos anos seguintes. E tornou-se mito ao encontrar a morte nas pistas, nos treinos para o GP da Bélgica de 1982.

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Do Baú: Gilles na McLaren


Gilles Villeneuve, lenda do automobilismo, tem sua história diretamente ligada à Ferrari. Por décadas, foi considerado piloto-símbolo da escuderia, sinônimo de destemor, coragem, arrojo e velocidade. A associação Villeneuve-Ferrari foi uma das mais fortes da história da Fórmula 1, tendo o canadense corrido pela equipe italiana por praticamente toda a sua trajetória na categoria.

Mas em 68 GPs, apenas uma vez o talentoso Gilles foi para a pista com um carro que não uma Ferrari. Foi justamente em sua estréia na Fórmula 1, no GP da Inglaterra de 1977. Indicado por James Hunt, a quem havia batido em uma prova de F2 no ano anterior, Villeneuve ganhou uma oportunidade de Teddy Mayer, guiando um terceiro carro da equipe McLaren. Chamou a atenção com um nono lugar no grid, à frente de Jochen Mass, segundo piloto do time, 11º colocado.

Na corrida, chegou a andar em 6º lugar, mas terminou em 11º. Mesmo assim, já havia chamado a atenção do mundo da Fórmula 1, principalmente de Enzo Ferrari. O comendador ligou para Villeneuve, a quem dizia fazê-lo lembrar de Tazio Nuvolari. O canadense abandonou seu acordo de disputar mais três corridas pela McLaren e ficou negociando com a equipe italiana, visando a temporada de 1978.

Niki Lauda, então primeiro piloto e brigado com toda a equipe, conquistou o título mundial com duas corridas de antecedência e mandou avisar que não sentaria mais em nenhum dos carros vermelhos. Era a oportunidade de Villeneuve, que estreou pela Ferrari ainda em 1977, no GP do Canadá. Ali nasceria uma parceria por toda a vida, literalmente.

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Naftalina – parte VI

Mais um achado do acervo do Mario Jorge: voltas finais do GP de San Marino de 1982.

O que parece ser uma saudável e empolgante disputa pela vitória entre dois companheiros de equipe, na verdade tratou-se de um duelo desigual. Preocupada com o alto consumo de combustível no circuito de Imola e já tendo uma dobradinha garantida, a Ferrari deu ordens para que os pilotos mantivesssem posições, com Gilles Villeneuve na ponta. Porém, na última volta, Didier Pironi deu um golpe na própria equipe ao ultrapassar o companheiro e vencer a corrida.

Sentido-se ludibriado, Villeneuve sequer falou com o francês, dando-lhe as costas no pódio. A partir deste epidódio, em guerra declarada dentro da equipe, o canadense passou a assumir ainda mais riscos para andar na frente. E foi assim que, duas semanas depois, ele saiu em desabalada carreira nos últimos minutos do treino de classificação para o GP da Bélgica para tentar roubar de Pironi o sexto lugar no grid de largada. Calculou mal uma ultrapassagem sobre Jochen Mass, sofreu um grave acidente e morreu.

Anos mais tarde, Pironi teve um filho, o qual batizou com o nome Gilles.

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Naftalina – parte III

O blogueiro Mario Jorge Dourado enviou este vídeo histórico: o programa Sinal Verde do dia 8 de maio de 1982, com matéria de Reginaldo Leme anunciando o acidente e a morte de Gilles Villeneuve.

Para quem é mais jovem e não conheceu, o Sinal Verde era um programa que a Globo exibia nos sábados que antecediam as provas do Mundial de Fórmula 1, entre a novela das seis e das sete. Na época, os treinos de classificação não eram transmitidos para o Brasil e era neste programa que ficávamos sabendo o que tinha acontecido no sábado e qual era o grid de largada para a corrida do dia seguinte.

Quando as transmissões ao vivo do qualifying começaram, em 1991, o programa foi perdendo seu charme e foi parar até na madrugada de sábado para domingo. Acabou extinto no final dos anos 90.

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