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Ivan Capelli não é um ex-piloto de Fórmula 1, embora o nome sugira isso. É um jornalista não-praticante gaúcho que adora dar pitaco em diversos assuntos, principalmente automobilismo. Escreve sobre Fórmula 1 na Internet desde 1998, tendo sido um dos primeiros a fazer isso no Brasil. Desde 2003 colabora com o site Grande Prêmio. Já escreveu também para o site GP Total e foi o responsável pela tradução do GP Guide, Bíblia da F1, para o português brasileiro. Fundou e assina matérias para a Revista Warm Up. Também quebra galhos como ilustrador picareta. Mas faz tudo isso por gosto pelas corridas, já que sua atividade principal é como gestor em uma empresa de Tecnologia da Informação. No fim das contas, não sabe nada de nada, mas parece que engana muito bem. SIGA NO TWITTER ASSINE O RSSContato
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Arquivo da tag: GP da Austrália
Heidfeld homenageia Kubica

O leitor Lucas R enviou, via comentários, um link com frames da F1 em alta definição, capturados por telespectadores.
Não bastasse a conclusão de que as imagens são mesmo incríveis, percebi algo que passou meio batido no capacete de Nick Heidfeld. Ao menos no treino de sexta-feira, que foi quando este frame foi capturado, ele alterou um singelo detalhe em seu capacete, em homenagem a seu ex-companheiro de BMW Sauber, Robert Kubica.
No espaço dedicado às cores da bandeira alemã, na lateral, Nick aplicou ali uma bandeira da Polônia. Um gesto simples, mas bonito.
Asa móvel: #EpicFail

Incrível como, ano após ano, a FIA se esforça em criar novidades no regulamento da Fórmula 1 que simplesmente não atendem em nada os objetivos propostos. O último #EpicFail da entidade foram as tais asas móveis, que estrearam no GP da Austrália.
O recurso, criado com o intuito de facilitar ultrapassagens, revelou-se uma engenhoca inútil. No começo da prova, quando Jenson Button atacava Felipe Massa, que vinha num ritmo bem mais lento, imaginou-se que a asa móvel resolveria a parada. Com ansiedade, todos esperaram Button acionar o dispositivo pela primeira vez. O inglês fez a última curva da pista colado na Ferrari do brasileiro, a luz do volante acendeu, ele acionou o dispositivo e… nada aconteceu. O piloto da McLaren tentou ultrapassagens por oito voltas, até se afobar e cortar uma curva.
A asa móvel foi absolutamente inútil exatamente na situação a qual mais dela se esperava. Disputa direta de posição, dificuldade de ultrapassagem mesmo com um carro mais lento à frente. E a solução de todos os problemas não solucionou coisa nenhuma.
O caso Button-Massa foi o mais emblemático, mas em várias outras brigas na corrida a asa móvel foi utilizada. E, assim como no primeiro caso, de pouca coisa serviu. Virou apenas mais uma traquitana besta. Talvez sua maior valia tenha sido na ultrapassagem de Felipe Massa sobre Sebastien Buemi, no final da corrida. Ainda assim, uma manobra que provavelmente aconteceria também sem ela.
Talvez, em autódromos com retas mais longas, como Shanghai, ela sirva para alguma coisa. Mas é motivo de chacota criarem um frisson tão grande em cima de algo que, na prática, funciona apenas em determinadas condições. E assim segue a Fórmula 1, até a próxima “inovação” enfiada goela abaixo, sem resultados práticos.
Webber e Massa, os pilotos-Tiririca

Depois do que protagonizaram no GP da Austrália, pode-se dizer que Mark Webber e Felipe Massa são os “pilotos-Tiririca”, em alusão ao maior bordão da campanha eleitoral de 2010: pior do que está, não fica.
Dispondo do mesmo carro do vencedor Sebastian Vettel e correndo em seu país natal, Webber não se encontrou em momento algum em todo o final de semana. Andando em um ritmo muito mais lento, sequer foi páreo para pilotos com carros inferiores, como Fernando Alonso e Vitaly Petrov. Teve um desgaste de pneus acentuado, que o obrigou a três pit stops. Na saída do terceiro pit, demonstrou afobação na perseguição a Alonso e chegou a sair da pista.
Cruzou a linha de chegada em quinto, parando logo o carro no acostamento. Talvez tenha sofrido algum problema mecânico que venhamos a descobrir mais tarde. De toda forma, o mau desempenho nos treinos também deixa uma pulga atrás da orelha: parece que o australiano acusou o golpe da derrota para Vettel no ano passado.
Assim como Felipe Massa, que desde a cessão de posição a Alonso no GP da Alemanha do ano passado não repete mais as boas atuações de outros tempos. Hoje, fez até uma excelente largada, saltando de oitavo para quinto. Defendeu com raça a posição dos ataques de Jenson Button, até o inglês cometer um erro e ultrapassar por um atalho na pista, o que lhe resultou numa punição com “drive through”.
Porém, apesar da dedicação e da habilidade na defesa de posição, era nítido que o ritmo de Felipe era muito ruim. Assim que Button passou, perdeu também a posição para Alonso e foi ficando para trás, cada vez mais para trás. Seu ritmo era tão pouco competitivo que Button, mesmo punido com uma passagem forçada pelos boxes com velocidade limitada, conseguiu alcançá-lo e ultrapassá-lo no final da corrida.
Fechando a prova num lamentável nono, fica o consolo de ter marcado a volta mais rápida. Entretanto, é um dado pouco importante, já que Felipe foi o piloto de carro de ponta a fazer o mais tardio pit stop, o que o deixou na pista mais leve e com pneus em melhor estado. Fez bela ultrapassagem sobre Sebastien Buemi, mas algo que deve ser considerado uma obrigação para quem pilota uma Ferrari.
O perceptível é que, tal qual Webber, Felipe errou demais no final de semana. Rodou, saiu da pista nos treinos, defendeu posição contra Button de forma agressiva (ainda que leal). Tudo isso aponta para um certo descontrole emocional, uma tentativa de ultrapassar os limites para conseguir um bom resultado. Até aqui, sem sucesso.
Ainda é cedo, o GP da Austrália foi apenas a primeira corrida de 19 da temporada. Mas os indícios são de que tanto Massa quanto Webber estão desestabilizados por terem companheiros de equipe campeões, difíceis de serem batidos.
Perez, o nome da prova

Sebastian Vettel venceu sem dificuldades, fazendo parecer fácil. Vitaly Petrov fez história com o primeiro e merecido pódio. Mas quem brilhou mesmo, até pela pouca expectativa que se tinha, foi o mexicano Sergio Perez, da Sauber.
Sétimo colocado, chegar uma posição à frete do bem cotado companheiro Kamui Kobayashi já teria sido por si só um grande resultado. Mas as circunstâncias é que deram mais brilho à conquista de Perez: ele fez a prova inteira com apenas uma troca de pneus.
O equilíbrio do bom carro da Sauber foi determinante para o resultado, mas de toda forma, é notável que alguém tenha feito uma corrida poupando pneus assim, ainda mais um estreante. Mais: durante boa parte da corrida, o mexicano esteve com a volta mais rápida da prova em mãos, feita num momento em que seus pneus já tinham mais de 20 voltas de uso. Perez mostrou ser um piloto rápido, mas que sabe conservar o equipamento. Seu segundo stint durou cerca de 35 voltas, algo impensável para qualquer outro piloto que quisesse ser competitivo.
Bastante criticado por entrar na equipe bancado pela Telmex de Carlos Slim, o novato mostrou que não é apenas um piloto pagante. É um bom piloto que entra na F1 amparado por um bom patrocínio. Algo que, convenhamos, não tem nada de desabonador. Poucos são aqueles que estrearam na categoria sem trazer consigo uma grande mala de dinheiro.
Petrov: fazendo história

Terceiro colocado no GP da Austrália, Vitaly Petrov fez história hoje. É o primeiro pódio de um piloto russo na Fórmula 1. O que é um tanto óbvio, já que ele é o primeiro piloto do país a correr na categoria.
O importante, no entanto, é que o resultado não teve nada de fortuito. Petrov largou bem, pulando de sexto para quarto logo na primeira curva. Depois, manteve um ritmo consistente de corrida e defendeu-se bem dos ataques de Fernando Alonso no final, ainda que tenham sido um pouco tímidos.
Em comparação com a corrida de seu companheiro e nº 1 da Renault, Nick Heidfeld, o feito de Petrov ganha ainda mais valor. O alemão fez uma corrida ridícula, para dizer o mínimo. Não demonstrou qualquer competitividade e acabou a corrida em 14º, à frente apenas da Lotus de Jarno Trulli e da Virgin de Jerome D’Ambrosio, que são carros lentos que correm praticamente numa categoria à parte.
E uma pergunta, em tom de lamento, fica no ar: se Petrov foi terceiro em circunstâncias normais, o que teria feito Robert Kubica com este bem nascido carro da Renault?
Entendendo a asa móvel

A grande novidade da temporada 2011 da Fórmula 1, além da chegada de um novo fabricante de pneus, é sem dúvida o recurso de asa traseira móvel. Nos primeiros treinos livres no Albert Park ficou mais claro como o recurso funciona, embora tenha gerado também muitas dúvidas. Então, em forma de “FAQ”, perguntas e respostas capellescas sobre as tais asas móveis que estão estreando. Algumas respostas foram baseadas numa conversa com o piloto reserva da Lotus, o brasileiro Luiz Razia.
Qual o sentido das asas móveis?
Criar mais uma varíavel nas corridas, que permita mais ultrapassagens. Com o aerofólio traseiro posicionado num ângulo mais baixo, o carro ganha velocidade em reta, facilitando manobras de ultrapassagem.
Como funciona?
O carro possui agora um botão no volante, que aciona o dispositivo que movimenta a asa. Quando o piloto pressiona este botão, um mecanismo modifica o ângulo de ataque, gerando menos arrasto aerodinâmico e fazendo o carro ganhar velocidade. Na foto que ilustra o post o funcionamento fica bastante claro. À esquerda, a asa em posição normal. À direita, a asa aberta.
O piloto pode modificar o ângulo da asa quando quiser?
Não. Nos treinos e na classificação, até pode. Mas o sistema só funciona se o piloto estiver com o pé 100% no acelerador. Uma leve retirada de pé já faz com o que a asa retorne à posição original. Na corrida, o sistema funcionará em condições muito especiais, na chamada “zona de ultrapassagem”.
O que é a zona de ultrapassagem?
É um trecho da pista, delimitado pelos organizadores da prova, no qual os pilotos poderão mudar a inclinação da asa durante as corridas. Normalmente, deve ser a reta de chegada, mas isso pode variar em circuitos como o de Shanghai, no qual há uma reta maior e mais apropriada para ultrapassagens que a de chegada.
Então é possível mudar o ângulo da asa quando quiser na reta?
Não. A asa móvel só vai funcionar durante a corrida se o piloto estiver a no máximo um segundo de distância do adversário à frente.
E como isso vai ser medido?
Sensores marcarão a diferença entre os pilotos na curva que antecede a zona de ultrapassagem. Se a distância for suficiente para acionar a asa na zona de ultrapassagem, uma luz se acenderá no volante. Assim, o piloto sabe que pode acionar o mecanismo.
E se um piloto acionar a asa fora da zona de ultrapassagem? Será punido?
Não há esta possibilidade. O mecanismo é controlado pela central eletrônica do carro, distribuída pela FIA e igual em todos os modelos, de todas as equipes. O piloto pode até apertar o botão, mas a asa não vai se recolher.
O piloto da frente poderá recolher a asa móvel para se defender da ultrapassagem?
Não. Como o acionamento do mecanismo só será liberado eletronicamente a quem estiver dentro da margem de 1s atrás do adversário, o piloto da frente não terá direito a utilizar o recurso. A não ser que, lógico, também esteja a menos de 1s de distância de outro piloto. O mecanismo existe para auxiliar o piloto em posição de ataque, não aquele em posição de defesa.
E se houver um problema mecânico e a asa traseira travar na posição mais baixa, o que acontece com o piloto? É desclassificado?
Nem é preciso desclassificar, ele já terá a corrida comprometida. Não terá estabilidade suficiente para fazer as curvas mais lentas e será severamente prejudicado nos tempos de volta. Terá que parar nos boxes para consertar ou abandonar a corrida.
Dá para fazer curvas com a asa recolhida?
Nos treinos, sim, mas só curvas de alta velocidade, feitas “flat”. Até porque, se o piloto tirar o pé do acelerador, o mínimo que seja, a asa volta à posição original. Na corrida, como existe a limitação da zona de ultrapassagem, não é possível acionar a asa móvel em curvas.
Detalhe que faz a diferença

Não é muito fácil reconhecer um piloto de Fórmula 1 à distância, dentro do carro, durante a corrida. O carro é perfeitamente distinguível, dadas as cores e as formas, mas saber qual dos pilotos está lá dentro não vem sendo uma tarefa muito simples.
Antigamente era muito mais fácil. Os carros tinham números enormes na frente e nas laterais que facilitavam a identificação, já que a cronometragem era manual e a distinção visual entre os carros se fazia fundamental para que uma corrida pudesse ser acompanhada. Ao final dos anos 70, com o surgimento da cronometragem eletrônica, os números passaram a ficar menos importantes e foram sofrendo um gradual processo de redução. Ao final dos anos 90, praticamente desapareceram.
Nesse ínterim, os espectadores das corridas passaram a utilizar as cores dos capacetes para saber quem era quem dentro de um carro da mesma equipe. Dava certo, embora em alguns casos cascos semelhantes pudessem causar confusão, como Jos Verstappen e Michael Schumacher, na Benetton em 1994. A partir de 1996, no entanto, as proteções laterais dos cockpits passaram a ser mais altas, por questão de segurança. Assim, os capacetes ficaram mais escondidos, dificultando novamente a distinção entre pilotos com carros iguais.
Foi então que, a partir de 2005, a FIA instituiu uma nova forma de identificação dos carros de cada equipe, utilizando as câmeras on-board localizadas acima do santo-antônio de cada carro, conhecidas como “T-Cams”. As regras e as cores variam desde então, mas a norma é: cada piloto de cada equipe tem uma câmera pintada de uma cor diferente.

As duas Force India, lado a lado. Liuzzi, com câmera amarela. Sutil, com a vermelha.
(Foto: Paul Gilham/Getty Images)
No GP da Austrália, muita discussão aconteceu em função de uma disputa entre Michael Schumacher e um carro da Virgin. O alemão ultrapassou por dentro e levou um belo “x” na retomada, numa manobra que foi creditada ao brasileiro Lucas di Grassi. O problema é que os narradores se enganaram. Basta ver qualquer foto ou frame para identificar que a microcâmera do carro envolvido tinha detalhes em vermelho, o que representa o alemão Timo Glock. A de Lucas Di Grassi é amarela. Logo, a disputa não foi com ele.
É um detalhe bastante simples, mas que faz toda a diferença. Abaixo, uma colinha com as cores das câmeras de todos os carros da F1 em 2010. Assim, se você quiser dar uma de bom para cima do Galvão Bueno na próxima corrida, estará bem escorado.
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25 anos de GP da Austrália – parte final
Depois de onze quase sempre emocionantes corridas em Adelaide, a Fórmula 1 trocou de ares na Austrália. Em 1996 a FIA transferiu a prova para Melbourne, no estado de Victoria. Mas a mudança não foi apenas de localização, mas também de calendário. Depois de encerrar o Mundial de F1 por onze anos consecutivos, a Austrália passava a abrir o campeonato. O que gerou uma situação inusitada: pela primeira vez na história da categoria, um mesmo GP aconteceu duas vezes consecutivas. Ao término do GP da Austrália de 1995 todos se disseram: boas férias, nos revemos ano que vem na… Austrália!
E a primeira corrida no Albert Park quase proporcionou o primeiro piloto-estreante vencedor em 35 anos.
Desde 1961, quando Giancarlo Baghetti estreou na F1 com uma Ferrari no GP da França, um novato não ganhava seu primeiro GP na categoria. Jacques Villeneuve, campeão da Indy, chegou na F1 abafando e quase levou. Nos treinos de classificação, colocou seu companheiro de Williams Damon Hill no bolso e marcou a pole position. Na corrida, largou bem e manteve a ponta por praticamente toda a prova, até escapar da pista e danificar uma mangueira de óleo. Seu motor perdeu pressão e ele precisou reduzir a velocidade, entregando a vitória de bandeja a Hill. Ao fim do ano, o inglês se sagraria campeão, iniciando um novo marco do GP Australiano: desde então, o vencedor da prova quase sempre levou o título da temporada. Em apenas quatro ocasiões, de 14, isso não aconteceu: 1997, 1999, 2003 e 2005. Por essa informação, fica fácil deduzir que o maior vencedor do circuito é Michael Schumacher, quatro vezes.
O mesmo problema de rádio trouxe uma certa controvérsia à corrida de 1998. Mika Hakkinen, da McLaren, dominou todo o fim de semana e liderava a prova à frente de seu companheiro Coulthard, até que entendeu errado uma comunicação de seu engenheiro e foi aos boxes num momento em que a equipe não estava preparada. Com a desaceleração e o limite de velocidade dos boxes, foi ultrapassado pelo escocês, que assumiu a ponta. Porém, a três voltas do fim, cedeu posição e devolveu a vitória a Hakkinen. Se fosse mais esperto, teria fingido um problema no rádio…
Problemas, aliás, não faltaram na corrida de 1999. Já na largada, algo inusitado: os dois motores Ford das duas Stewart, de Rubens Barrichello e Johnny Herbert, explodiram ao mesmo tempo, enquanto aguardavam no grid. As favoritas McLaren tiveram problemas mecânicos e Michael Schumacher não conseguiu alinhar para a segunda volta de apresentação, tendo que sair da última posição. Até que se recuperava bem, mas teve um pneu furado e acabou em oitavo e último lugar. O sobrevivente vitorioso foi Eddie Irvine, que herdou a primeira vitória de sua carreira. O irlandês brigaria pelo título daquele ano, depois que Schumacher quebrou a perna em Silverstone. Mas terminou só com o vice mesmo.
E foi em Melbourne, em 2001, que o alemão sofreu o mais assustador acidente de sua carreira, depois daquele de 1999. Nos treinos livres de sexta, ele perdeu o controle da Ferrari, rodou e capotou algumas vezes na área de escape, antes de parar na barreira de pneus. Felizmente, foi apenas um grande susto, ao contrário do que se sucederia no domingo. Jacques Villeneuve tentou uma ultrapassagem sobre a Williams de Ralf Schumacher, errou o cálculo e tocou a roda traseira do alemão. Saiu voando e bateu na mureta. Um dos pneus de sua BAR se soltou e atingiu um fiscal de pista, Graham Beveridge, que morreu. Por sinal, foi a última morte em uma corrida de F1 desde então.De lá para cá, o Albert Park sediou várias corridas movimentadas e emocionantes, porém sem resultados muito especiais. A grande zebra, mesmo, aconteceu no ano passado, com a espetacular dobradinha da Brawn GP. Pela primeira vez em mais de 50 anos, uma equipe estreante vencia sua primeira corrida e ainda marcava o segundo lugar. Foi o prenúncio de um campeonato surpreendente, que fez de Jenson Button – o quase-desempregado – campeão mundial.
25 anos de GP da Austrália – parte 2
Se na maioria das vezes as corridas em Adelaide foram de certa forma uma celebração de fim de temporada, em duas ocasiões a situação foi um tanto diferente. O GP da Austrália decidiu dois títulos mundiais, em 1986 e 1994. Ambas decisões foram históricas, cada uma à sua maneira. Se em 1986 Alain Prost foi o campeão-azarão numa prova marcada por muitas alternativas e suspense até as voltas finais, em 1994 a corrida australiana foi marcada pela infâmia, com Michael Schumacher forçando um acidente com Damon Hill.
Três no páreo e decisão surpreendente
Nigel Mansell, Nelson Piquet e Alain Prost desembarcaram na Austrália com ambições de fechar o ano com um título mundial. O inglês era o franco favorito. Bastava um terceiro lugar, independentemente de qualquer outro resultado, para ser campeão. E, ainda que não fosse ao pódio, levaria o título da mesma forma, caso o vencedor não fosse nem Prost nem Piquet. O brasileiro, companheiro de Mansell na Williams, precisava da vitória a todo custo. E Prost, ainda que em segundo lugar no campeonato, era o menos cotado, já que sua McLaren-TAG Porsche não era páreo para as duas Williams-Honda.
Na classificação, já se pôde ter uma noção da vantagem da Williams. Mansell e Piquet formaram a primeira fila, virando tempos na casa de 1min18s. Prost foi quarto, mais de um segundo atrás. Seu companheiro, Keke Rosberg, foi apenas sétimo, a dois segundos das Williams. A situação não era nada favorável à McLaren. E justamente por isso, a equipe decidiu por uma estratégia ousada.
Rosberg foi escolhido como “coelho”. Não venceria, mas largaria mais leve e dispararia na frente de forma a forçar Piquet e Mansell a desgastarem seus equipamentos. Tudo começou conforme o script, com o finlandês ultrapassando todo mundo – é bom lembrar que era uma época em que ultrapassagens eram eventos normais – e assumindo a ponta. Piquet e Mansell começaram a forçar e o brasileiro foi o primeiro a se complicar, travando os freios e rodando. Caiu do segundo para o quarto lugar.
Mas, por um instante, pareceu que a estratégia do time de Ron Dennis fracassara. Alain Prost teve um pneu furado e foi obrigado a parar nos boxes. Despencou para a quarta posição e suas chances de título pareciam terminadas. Mas justamente o pneu furado foi seu grande aliado.
Aqui cabe um parêntese. Duas semanas antes, no México, a Goodyear protagonizou um fiasco ao ver suas equipes obrigadas a duas paradas para trocas de pneus por seus compostos não aguentarem as ondulações do circuito Hermanos Rodriguez. Gerhard Berger, com uma Benetton – equipe estreante – calçada com pneus mais resistentes da concorrente Pirelli, conseguiu uma vitória surpreendente. Fecha parêntese.
Preocupada com o fracasso no México, a Goodyear prometeu novos compostos para o GP da Austrália que, em sua avaliação, seriam resistentes o suficiente para garantir uma corrida inteira sem trocas. Como ninguém iria parar, Prost estava, de fato, ferrado. Mas não foi bem assim.
Cerca de trinta voltas depois, já no terço final de corrida, o coelho Rosberg encostou e abandonou. Em um primeiro momento, imaginava-se pane seca, já que o finlandês vinha num ritmo alucinante a corrida toda. Mas não: o motivo fora um pneu furado. Dados os problemas de pneus nas duas McLaren, era de se esperar que os compostos da Goodyear não fossem assim tão resistantes. Mas, mesmo assim, a Williams confiou na palavra do fornecedor e não mandou nem Piquet nem Mansell pararem. Erro fatal.
O inglês, que vinha em segundo lugar e tinha o título nas mãos, viu seu pneu traseiro esquerdo explodir em plena reta, a 300km/h. Felizmente, conseguiu controlar o carro e evitou um grave acidente, mas o título já estava perdido. Com o abandono de Mansell, Piquet passou a liderar a prova, com Prost em segundo. Porém, preocupada com o estado dos pneus do brasileiro, considerando que ele já havia travado rodas e rodado, a equipe o orientou a parar nos boxes para uma troca. Assim, a menos de 20 voltas para o fim, Prost assumiu a liderança rumo a seu segundo título mundial.Piquet ainda reduziu a diferença, mas já era tarde. Nem mesmo um problema no medidor de combustível, que a duas voltas do fim passou a sinalizar que não havia mais gasolina no tanque, tirou o título de Prost. O francês não reduziu o ritmo e preferiu correr o risco de uma pane seca. Saiu de Adelaide campeão. Desceu do carro logo depois de cruzar a linha de chegada, saltando de alegria. Um grande momento.
Triste fim de uma temporada infame
Já em 1994, a situação foi completamente diferente. A temporada foi marcada por uma série trágica de acidentes, sendo que dois produziram vítimas fatais: Ayrton Senna e Roland Ratzenberger. O campeonato apresentou uma liderança folgada de Michael Schummacher, que ganhou seis das sete primeiras corridas. Porém, uma série de desavenças entre a FIA e a equipe Benetton, acusada de utilizar dispositivos ilegais em seus carros. As acusações nunca ficaram provadas, mas mesmo assim a FIA fez “justiça com as próprias mãos” ao desclassificar Schumacher de duas corridas e proibi-lo de disputar outras duas. O alemão até mereceu a desclassificação no GP da Inglaterra, mas o restante das punições pareceram um tanto exageradas. Era uma tentativa atrapalhada de salvar um campeonato manchado por mortes, trapaças e controvérsias.
Com tapetão, a decisão do título acabou ficando para a última corrida. Michael Schumacher chegou à Austrália líder, mas apenas um ponto à frente de Damon Hill, da Williams. Assim, quem chegasse à frente nas primeiras posições seria o campeão, num briga direta, homem a homem.
A pole position ficou com Nigel Mansell, que substituía Senna na Williams, com Schumacher em segundo e Hill em terceiro. Depois de dois anos na Indy, o Leão havia se acostumado com largadas lançadas e não partiu bem quando surgiu o sinal verde. Caiu para quinto, deixando a briga na ponta para os dois postulantes ao título. Schumacher saltou na frente, com Hill em segundo.
Embora não tenha havido uma tentativa de ultrapassagem, Hill vinha marcando Schumacher de perto. Até o pit stop fizeram juntos, era mesmo uma marcação homem a homem. Quando começaram a negociar ultrapassagens com retardatários, o alemão conseguiu abrir alguma vantagem. Porém, errou na 35ª de 81 voltas. Deixou sua Benetton escapar, bateu com a roda dianteira numa mureta de proteção e voltou à pista atordoado. Damon Hill, que viu Schumacher voltando à pista depois de uma escapada, achou que aquela era a sua grande chance e colocou por dentro para ultrapassar. Ao ver que não teria como segurar o inglês, Schumacher apelou. Jogou sua Benetton sobre o carro de Hill, forçando o abandono de ambos.Foi um título constrangido, o primeiro da carreira vitoriosa de Schumacher, e talvez o que mais prejudicou sua imagem. A canalhice que fez foi aprendida na cartilha de seus professores, Alain Prost e Ayrton Senna. Mas o problema é que na época Michael era apenas um talentoso piloto buscando provar que poderia ser campeão. Senna e Prost foram sujos quando já gozavam da fama de super-heróis, um momento no qual barbaridades são vistas com certa condescendência. Schumacher não tinha um passado que o absolvesse, mas o futuro se encarregou de lhe fazer justiça.
Amanhã, a parte final do especial, com os GPs disputados no Albert Park.
25 anos de GP da Austrália – parte 1
A história dos Grandes Prêmios da Austrália válidos pelo Mundial de Fórmula 1 começa há exatos 25 anos. Não que antes nunca tenha havido corridas na terra dos aborígenes, mas o fato é que as provas de F1 lá realizadas anteriormente aconteceram como corridas extra-oficiais, sendo algumas delas válidas pela Tasman Series. Mas isso já dá outro post.
A Austrália entrou pra valer no mapa da categoria a partir de 1985, quando o circuito urbano de Adelaide passou a sediar a corrida, sempre a última da temporada. Lá aconteceram 11 Grandes Prêmios até 1995, quando as características da prova australiana mudaram por completo. Passou do final para o começo do calendário e trocou as ruas de Adelaide pelo traçado dentro de um parque em Melbourne.
A série de três posts que se inicia hoje conta diferentes momentos do GP oceânico. O primeiro, fala de algumas divertidas corridas – quase que recreativas -, que marcaram o encerramento de várias temporadas. Amanhã, o post será sobre as duas decisões de título que lá aconteceram, em 1986 e 1994. E na quarta-feira, um pouco da história mais recente, com algumas corridas já disputadas no Albert Park.
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Tempo de confraternização
Cidade litorânea ao sul da Austrália, Adelaide quase sempre sediou corridas mais relaxadas, uma espécie de confraternização de fim de ano. Não por acaso: todos os GPs lá disputados encerraram as temporadas, sendo que nove dos onze aconteceram já com o título do campeonato definido. Assim, as equipes e pilotos dirigiam-se à Oceania para quase que celebrar o ano que passou e engatar um início de férias num lugar agradável à beira-mar.
O clima festivo proporcionou corridas bastante diferentes. Para se ter uma ideia, Ayrton Senna correu no sacrifício em 1988, logo após ser campeão no Japão, por ter machucado o pulso jogando futebol na véspera do GP. Algo impensável durante a tensão normal de uma temporada.
São situações como essas que ajudam a explicar como, em nove corridas que ocorreram nessas condições, apenas uma vez o campeão da temporada venceu. Foi em 1991, quando Senna ganhou a mais curta corrida da história da Fórmula 1, que durou apenas 14 voltas. O temporal foi tamanho que a prova foi interrompida logo cedo e os pontos, contados pela metade.
Na prova de estreia, em 1985, Keke Rosberg deu show e conquistou sua última vitória na F1. Mas o show mesmo foi de Ayrton Senna, que fez uma espécie de corrida circense. Saltou por sobre zebras, perdeu o aerofólio dianteiro de sua Lotus e deu até um passeio por baixo das arquibancadas temporárias. Depois de castigar tanto seu carro, abandonou com problemas mecânicos, como era de se esperar.
Três anos depois, um outro abandono, mas premeditado. Gerhard Berger sabia que sua Ferrari não tinha a menor chance na corrida. O motor consumia muito combustível e, à época, o reabastecimento era proibido. Para chegar ao final, precisaria andar lentamente. Como a corrida já não valia mais nada mesmo, resolveu dar show. Saiu com pouca gasolina e foi para o ataque. Ultrapassou as imbatíveis McLaren de Senna e Prost e disparou na ponta. Até que encontrou o retardatário René Arnoux. Viu ali a chance de um grand-finale: jogou seu carro por dentro e forçou uma batida com o francês. Como o piloto da Ligier era maluco e fechava todo mundo mesmo, ninguém desconfiou que tivesse sido um acidente premeditado. E Berger saiu de Adelaide como o herói do dia. E Arnoux, coitado, foi o retardatário vilão da vez.Climão nos bastidores e corrida espetacular
Mas poucos GPs da Austrália foram mais empolgantes do que a edição de 1990, que entrou para a história como a 500ª corrida da história da F1. Senna e Prost brigaram pelo título até o GP do Japão, que encerrou a disputa com o infame acidente entre ambos na largada. Na Austrália, duas semanas depois, o clima ainda era péssimo. O brasileiro discutiu rispidamente com o tricampeão Jackie Stewart durante uma entrevista, com o escocês batendo firme na questão da falta de desportividade demonstrada em Suzuka. Prost, furioso, negou-se a posar para uma foto comemorativa ao lado dos campeões mundiais vivos lá reunidos, só para não ficar perto de Senna.
Na pista, no entanto, não houve faíscas entre eles. Ayrton largou na pole, disparou na frente e não tomou conhecimento de Prost na prova. Rumava para uma vitória até tranqüila, até que sofreu um problema de freios, bateu na barreira de pneus e abandonou. Nigel Mansell, com a Ferrari, assumiu a liderança e parecia vencer com tranqüilidade, até ser surpreendido pela zebra Nelson Piquet. Sua Benetton, ainda que tivesse vencido no Japão, não era o carro mais competitivo e dificilmente ganharia uma corrida com McLarens e Ferraris na pista. Mas Piquet elaborou uma estratégia de não trocar pneus e surpreendeu o piloto inglês. Manteve-se à frente com dificuldade, enquanto Mansell vinha rápido com pneus novos. Na última volta, o Leão tentou o bote por dentro na curva mais fechada do circuito, a poucos metros do final. Sem medo, Piquet fechou a porta e, por milímetros, os dois não se chocaram. Vitória do brasileiro, na chegada mais emocionante de todos os GPs da Austrália.
A reconciliação de dois grandes nomesSe por um lado a corrida de 1990 viu o auge da inimizade entre Senna e Prost, três anos depois Adelaide foi palco da reconciliação dos dois campeões. O francês se despedia da Fórmula 1, enquanto que o brasileiro dava adeus à McLaren. Numa prova histórica, a vitória foi de Senna, com Prost em segundo. Na garagem, depois de anos de frieza e inimizade, Ayrton estendeu a mão a Alain e ambos trocaram um cordial cumprimento. No pódio, Senna ergueu algumas vezes o braço de Prost, campeão daquela temporada, como que num reconhecimento público da importância que o francês teve em sua carreira e na história da categoria. Foi a última vitória de Senna e o capítulo final de um dos maiores – e mais controversos – duelos da história da F1.
Mas em 1989, por exemplo, a corrida foi tensa. Logo após o polêmico GP do Japão, o qual Senna venceu mas foi desclassificado depois de um acidente com Prost, o título já estava decidido em favor do francês. Porém, Senna e a McLaren aguardavam julgamento de um recurso e esperavam vencer em Adelaide para que o título trocasse de mãos no tapetão. No dia da corrida, um temporal desabou sobre o circuito, deixando a pista absolutamente sem condições. Enquanto a maioria dos pilotos se organizava para evitar a largada, Ayrton Senna era um dos poucos que permanecia no cockpit aguardando a volta de apresentação. A direção de prova autorizou o início das atividades assim mesmo, com vários pilotos percorrendo o grid a pé. A largada, com nem todo mundo alinhado ainda – vários carros ainda estavam em volta de apresentação -, foi uma zona. Tanto que, logo depois, foi anulada. Alain Prost, que havia largado da primeira vez, recolheu-se aos boxes na primeira passagem e não voltou para a segunda partida. Senna largou de novo, manteve-se na ponta mas acabou abandonando depois de um acidente com Martin Brundle. O brasileiro não viu a Brabham do inglês por causa da forte chuva e acertou-lhe em plena reta. Foi o fim do sonho do título, ainda que pelas vias judiciais. A vitória foi do correto Thierry Boutsen, com a Williams. Sua segunda vitória na carreira, a segunda sob forte chuva.
Adelaide se despede com corrida maluca
A despedida de Adelaide aconteceu em 1995. Melbourne passaria a sediar o GP da Austrália a partir do ano seguinte e a corrida aconteceu sob um clima esquisito. Mika Hakkinen sofrera um acidente nos treinos de sexta-feira e estava em coma no hospital. Michael Schumacher, já bicampeão, despedia-se da Benetton e sofreu um acidente com Jean Alesi, que o substituiria na equipe italiana. David Coulthard, que liderava a prova, bateu na mureta dos boxes quando faria seu primeiro pit stop. Praticamente todo mundo foi abandonando e o caminho ficou livre para Damon Hill, que ganhou com duas voltas de vantagem para o segundo colocado, o francês Olivier Panis, que disputou as últimas voltas com o motor Mugen-Honda de sua Ligier soltando fumaça para todo lado. O pódio foi completado por Gianni Morbidelli com a Arrows, ele que só voltou a correr porque o dinheiro de seu substituto, Max Papis, tinha terminado. Foi uma despedida bastante inusitada para um dos circuitos mais divertidos da Fórmula 1.
GP da Malásia é o 5º da história com pontos pela metade

Foto: Reprodução/Grande Prêmio
Interrompido depois de 31 voltas em função das fortes chuvas em Sepang, o GP da Malásia contou apenas metade da pontuação para os pilotos, por não terem sido completados 75% das voltas previstas. Em toda a história foi apenas a quinta vez, em 805 corridas válidas pelo Mundial de Pilotos, que uma prova terminou assim, apenas a segunda em um circuito permanente. Todas as outras três ocorreram em pistas de rua.
A primeira vez em que metade dos pontos foram contados aconteceu no GP da Espanha de 1975, quando o Embassy-Hill de Rolf Stommelen voou em direção ao público no Montjuich Park, matando três fiscais, um fotógrafo e um espectador. A corrida foi interrompida com apenas 29 das 84 voltas previstas e a vitória ficou com Jochen Mass, da McLaren. Seria sua primeira e única conquista na Fórmula 1. E também foi a única vez em que o motivo da interrupção não foi a chuva.
No mesmo ano, outra prova contou apenas metade dos pontos. Foi o GP da Áustria, em Zeltweg, disputado sob muita chuva. Eram previstas 54 voltas, mas a corrida foi encerrada com 29, pouco mais da metade. A pista estava encharcada e a vitória ficou com a zebra Vittorio Brambilla, que cruzou a linha de chegada rodando e batendo seu March laranja na mureta dos boxes. Ainda deu a volta da vitória com o bico quebrado, numa cena hilária.
Nove anos depois, em 1984, uma nova interrupção obrigou uma prova a contar apenas metade dos pontos. Foi no famoso GP de Mônaco de 1984, quando Ayrton Senna deu show com a Toleman e chegou em segundo lugar depois da bandeira vermelha ser acionada, na 31ª das 76 voltas previstas. A vitória ficou com Alain Prost.
Há 18 anos, a corrida mais curta da história da Fórmula 1. Com diversos pilotos rodando e batendo nos muros e protestos veementes de Ayrton Senna por causa da falta de aderência com a chuvarada que caiu no circuito de rua de Adelaide, o GP da Austrália de 1991 foi encerrado com apenas 14 voltas, com vitória de Senna.
Nos últimos anos, outras corridas foram terminadas com bandeira vermelha, mas tiveram os pontos contados integralmente por já terem sido cumpridos mais de 75% das voltas previstas. Em 2003, Fernando Alonso e Mark Webber bateram na curva do Café, encerrando prematuramente o GP do Brasil. Em 1997, bandeira vermelha após um acidente com Olivier Panis no Canadá, quando o francês fraturou uma perna. E em 1990, Alex Caffi bateu no Estoril e se machucou, dando fim precoce ao GP de Portugal.
Dando migué

Foto: Reprodução/Grande Prêmio
Lewis Hamilton admitiu hoje, em coletiva, que mentiu aos comissários. Tentou dar neles um verdadeiro “migué”, omitindo a informação de que teria deixado Jarno Trulli passar e deixando o italiano pronto para ser punido, como foi. Porém, o inglês tenta se defender alegando que fez isso orientado por Dave Ryan, diretor esportivo da McLaren, já devidamente afastado do cargo. Mas o fato é que, nessa história, ficou feio para todo mundo.
Ficou feio para Hamilton que, além de ter ficado com imagem de vilão-mentiroso-safado para alguns, ficou com a de mané para outros. Afinal de contas, foi muita estupidez descer do carro, contar a versão correta dos fatos para os jornalistas e depois mentir de forma deslavada aos comissários da corrida. Seria no mínimo inteligente avisar a McLaren: “olha, eu já falei a verdade, não vai colar”. Se não agiu de má-fé, foi burro. Tentou ser esperto e acabou como malandro-otário. O garoto é jovem, é perdoável. Mas não dá para negar que Hamilton já se envolveu em confusões proporcionais a seu talento, em muito pouco tempo de Fórmula 1. Sua imagem está ficando desgastada cedo demais.
Ficou péssimo para a McLaren. Com a reputação manchada desde o episódio da espionagem em 2007, mais uma vez passou a impressão de equipe desonesta. Feriu um dos princípios mais nobres do esporte, que é o fair play. É claro que não há santinhos na Fórmula 1, mas a mentira da forma como aconteceu foi um jogo sujo, baixo. E a equipe pode levar um gancho mais sério da FIA, embora não acredite que vá acontecer.
E, por fim, ficou ainda mais feio para a trapalhona FIA. Como os comissários julgam a desclassificação de um piloto baseado apenas no testemunho de Hamilton? O que Trulli disse não foi considerado por quê? Por que não avaliaram a telemetria da McLaren e da Toyota? Por que não ouviram a fita antes? Como, com duzentas câmeras espalhadas num perímetro de menos de cinco quilômetros e mais de uma câmera onboard em cada carro, não conseguiram captar o incidente e julgar de forma adequada? Tomaram uma decisão apressada, errada e sem subsídios adequados para tal.
É preciso mais seriedade, de todas as partes. No fim das contas, todos agiram como moleques. E fizeram de manés aqueles que ficam nas arquibancadas, nas poltronas e nos sofás. E, que no fim das contas, são a razão desses moleques existirem.
Conversa entre Lewis e McLaren
Tradução capellesca do diálogo entre Lewis e McLaren após o incidente com Jarno Trulli no GP da Austrália. Alguns trechos técnicos do diálogo foram suprimidos, por não serem relevantes (coisas como “freios frios, aqueça”).
Lewis Hamilton: A Toyota saiu da pista na segunda curva… isso está certo?
McLaren: Entendido, Lewis. Vamos confirmar e damos retorno a você.
Lewis: Ele estava fora da pista. Ele saiu.
McLaren: Lewis, você deve deixar a Toyota passar. Deixe passar agora.
Lewis: OK.
Lewis: Ele ficou lento, bem na minha frente.
McLaren: OK, Lewis. Fique atento, fique atento. Ele vai ultrapassá-lo. Estamos falando com Charlie [Whiting, diretor de prova].
Lewis: Eu já o deixei passar.
McLaren: OK, Lewis. Está certo. Está certo. Mantenha a posição, mantenha a posição.
Lewis: Diga a Charlie que eu o ultrapassei, mas já o deixei passar.
McLaren: Entendido. Estamos checando. (…)
Lewis: Eu não tenho que deixá-lo passar, eu deveria assumir essa posição novamente, se ele cometeu um erro.
McLaren: Sim, a gente entendeu, Lewis. Apenas faça de acordo com a regra. Estamos perguntando a Charlie agora. Você está em quarto lugar. Mantenha esta posição, apenas fique próximo.
(…)
Lewis: Alguma notícia de Charlie, posso pegar a posição de volta ou não?
McLaren: Ainda aguardando resposta, Lewis. Ainda aguardando.
(…)
McLaren: OK, Lewis, esta é a última volta da corrida. Ao final da volta o Safety Car vai entrar nos boxes, apenas cruze a linha sem ultrapassar, sem ultrapassar. Nós estamos vendo este caso do Trulli, mas apenas mantenha sua posição.
O que se pode entender: Lewis estava querendo o terceiro lugar, pois achava que tinha direito à posição. Mas deixou Trulli passar por recomendação da equipe. O problema é que a desclassificação não veio baseada neste diálogo, mas sim na mentira que Lewis teria contado aos comissários ao final da corrida, que entraria em contradição com o que realmente ocorreu.
O que eu acho muito estranho é o fato de Hamilton mentir para os comissários, como eles alegam, sabendo que existem gravações do rádio disponíveis. E outra: por que, depois da corrida, Lewis falou abertamente a jornalistas que deixou Trulli passar por um pedido da equipe? Se ele mentiu aos comissários, seria lógico que mantivesse a mentira em público.
Muito, muito estranha esta história toda.
Dois erros não fazem um acerto

Foto: Divulgação/Bridgestone
A máxima é antiga e inspira-se no contrário das propriedades da multiplicação na matemática, que diz que “menos com menos, dá mais”. Mas é fato que na vida real dois erros não fazem um acerto e a FIA parece não prestar muita atenção nisso.
Hoje, a entidade mais atrapalhada do automobilismo mundial anunciou uma inversão nas punições no GP da Austrália. Jarno Trulli teve sua pena de 25 segundos cancelada e voltou ao pódio, recuperando seus seis pontos. Até aí, tudo bem, nada mais justo dados os novos indícios que surgiram durante a semana e que ajudaram a compreender melhor o acontecido. O problema é que, não satisfeitos, resolveram eleger um culpado. Um não, dois: Lewis Hamilton e McLaren foram “banidos” da prova e tiveram suas posições retiradas.
Por mais que a FIA diga que analisou as conversas de rádio, não acredito que nelas pudesse haver algum indício que a McLaren agiu de má-fé quando recomendou que Hamilton devolvesse a posição a Trulli. Teria o engenheiro dito pelo rádio: “deixa e trouxa passar e vamos forçar uma desqualificação”? Lógico que não. E duvido que haja alguma conversa que aponte, ainda que indiretamente, num direção assim. Seria uma estratégia tão absurda que não merece sequer ser comentada.
A McLaren errou, e feio, ao ter silenciado quando a Toyota foi punida. Se realmente Lewis e McLaren cederam a posição numa atitude de fair play, jogaram todo o jogo limpo para o espaço quando viram a adversária ser desclassificada e nada fizeram para esclarecer o caso. E talvez esta atitude contraditória, quase um fair-play-pero-no-mucho, é que tenha gerado a punição. Mas fica esquisito pra caramba desclassificar alguém por isso. Uma multa, uma advertência, ainda vá. Até porque todo o imbróglio só aconteceu porque nenhum fiscal ou comissário – contratados pela própria FIA – conseguiu entender o que tinha acontecido. E nem as câmeras de televisão – controladas pela FOM, parceira carnal da FIA – conseguiram flagar o incidente.
Em última instância, a McLaren paga pela incompetência da entidade em administrar suas próprias competições. Culpam a equipe por “conduta enganosa”, quando tudo o que aconteceu foi bastante evidente, com todas as dúvidas geradas apenas pelo problema de cobertura de televisão e de cegueira de comissários. Em 2009, de erros em erros, de menos em menos, a FIA vem se esforçando cada vez mais para multiplicar a confusão.
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Atualização: A FIA acaba de divulgar em seu site o áudio e a transcrição da conversa de rádio entre Lewis e a McLaren durante o GP da Austrália. Com ela, fica evidente que Lewis realmente devolveu a posição.
Louvável a transparência da FIA em divulgar esta evidência, mas ela não é muito diferente do que já se sabia. O que justificaria a punição seria o fato de Lewis ter negado aos comissários, em conversa posterior à corrida, que tenha deixado Trulli ultrapassar. O problema é que isso não está gravado e não foi divulgado. Transparência pela metade não resolve a questão como um todo.



















