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Kimi: um ano sem vitórias

Foto: Divulgação/Ferrari

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Semana passada, no GP da Espanha, Kimi Raikkonen atingiu uma marca negativa em sua carreira. Campeão do mundo em 2007 e piloto da Ferrari, o finlandês completou em Montmeló exatamente um ano sem vitórias na Fórmula 1. A última conquista de Kimi havia acontecido justamente na Espanha, em maio de 2008.

No total, são 19 corridas consecutivas sem chegar em primeiro lugar, igualando o segundo maior jejum de toda a sua carreira. Ele também ficou exatas 19 provas sem vencer entre os GPs do Japão de 2005 – sua última conquista pela McLaren – e o GP da Austrália de 2007, sua estreia na Ferrari. A maior sequênca de Kimi sem chegar na frente aconteceu entre o GP da Malásia de 2003 (sua primeira vitória na F1) e o GP da Bélgica de 2004: 27 provas.

Seu jejum também é histórico para a Ferrari. Nunca, até hoje, um piloto campeão do mundo pela equipe havia ficado tantos GPs sem vencer depois de conquistar um título mundial. O recorde negativo era de Jody Scheckter, que disputou mais 16 corridas pela equipe depois de conquistar o campeonato de 1979, sem mais chegar em primeiro.

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Brawn faz história, de novo

Foto: Divulgação/Bridgestone

Foto: Divulgação/Bridgestone

Com duas vitórias em duas corridas disputadas, a Brawn fez história outra vez hoje, em Sepang. Nunca, na história da Fórmula 1, um time havia vencido as suas duas primeiras provas na categoria.

A Mercedes, que estreara arrasadora com dobradinha no GP da França de 1954, não conseguiu repetir o feito na Inglaterra, etapa seguinte do campeonato. Ainda que tenha feito a pole position com Juan Manuel Fangio, a equipe falhou em conseguir o pódio. Outro argentino, José Froilan Gonzalez, venceu a corrida com a Ferrari, seguido por Mike Hawthorn e Onofre Marimon. A primeira Mercedes ficou em quarto, com Fangio.

Em 1977, Jody Scheckter venceu a prova de estreia da Wolf na Argentina, mas era apenas 11º em Interlagos quando abandonou o GP do Brasil, com problemas de motor.

Feito parecido encontra apenas paralelo na Alfa Romeo em 1950, que venceu todas as seis primeiras corridas que disputou. Mas como naquela temporada todo mundo era estreante, não é um desempenho tão impressionante quanto o da Brawn.

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Brawn e suas coincidências

Foto: Divulgação/Brawn

Foto: Divulgação/Brawn

A histórica vitória da equipe Brawn em sua estreia na Fórmula 1 veio cercada de algumas coincidências. A começar pelos motores fornecidos pela Mercedes que empurram os carros de cor branca/preta/marca-texto, mesma fábrica que estreou com vitória na categoria em 1954. Além disso, soube agora, via Ico, que Jody Scheckter, até então o último piloto a vencer a corrida de estreia de um time, é parceiro da Brawn através de sua bio-fazenda Laverstoke Park. Não bastasse isso, o carro do vencedor Jenson Button estava inicialmente inscrito para o GP da Austrália com o número 20, o mesmo estampado na carenagem do Wolf de Scheckter no GP da Argentina de 1977.

Mas a coincidência mais impressionante é outra: James Allen revela, em seu blog, que um jovem engenheiro trabalhava na estreante Wolf naquele histórico GP da Argentina. O nome dele? Ross Brawn.

Colaborou Julian Tavora.

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Pergunte ao Capelli: Temporada 1979

Foto: Arquivo

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“Capelli, tenho dúvidas com relação à temporada de 1979. A Ferrari dominou todo o campeonato, com Gilles Villeneuve e Jody Scheckter. Mas a equipe boicotou o canadense, ídolo da torcida, o obrigando a ceder posição e o título mundial para Scheckter no GP da Itália. Por que a Ferrari fez isso com Villeneuve? Só para ser campeã em casa?” – Zé Pedro, São Paulo/SP

Zé, bastante pertinente a pergunta, até porque nela estão contidos alguns mitos que, de tanto serem contados, já ganharam ares de verdade. Vai gerar um post longo, mas que acho que vale a pena, Em partes, então.

Domínio da Ferrari

Apesar da dobradinha na classificação final do campeonato, a temporada não foi um mar de rosas para a equipe italiana. Nas duas primeiras provas, com o carro do ano anterior, a Ferrari não foi páreo para as Ligier, que assombraram vencendo na Argentina e no Brasil, com Jacques Laffite.

Com a estreia do novo carro, na África do Sul, a escuderia deu um salto de qualidade e passou a dominar as etapas seguintes, beneficiada pela acentuada queda da Lotus, que dominara o campeonato anterior mas via-se às voltas com o fracassado modelo 80. Mas a Ferrari não liderava as provas de maneira absoluta, sofrendo forte pressão da Renault com seu inovador motor turbo, que andava uma barbaridade, mas quebrava sempre.

E, a partir da metade do campeonato, uma nova força surgiu: a Williams. Embora nunca tivesse até então vencido uma única corrida, o jovem time de Frank Williams e Patrick Head acertou a mão com o FW07, uma cópia bem-sucedida do Lotus 79. O time passou a empilhar vitórias com Alan Jones e Clay Regazzoni, sendo cinco em seis provas na segunda metade do ano, quatro delas consecutivas. Não fossem as regras de descarte bastante peculiares naquele campeonato, a Williams poderia ter ingressado forte na luta pelo título mundial.

Assim, forma-se um cenário que ajuda a entender o episódio do GP da Itália. Nem de longe foi um campeonato folgado e sossegado como os de 2002 e 2004, nos quais poderia ter escolhido o piloto campeão com facilidade, tamanho seu domínio sobre os rivais. Foi um campeonato duro, repleto de adversários que mudavam prova a prova.

Pontuação do campeonato

A temporada de 1979 foi particularmente especial no que diz respeito à pontuação. Na época, a regra de descartes era praxe, mas geralmente restritos aos dois piores resultados da primeira metade e aos dois da segunda metade. Em alguns casos, apenas um resultado era descartado em cada metade de temporada. Porém, a ideia de beneficiar a vitória em detrimento da regularidade ganhou contornos exagerados naquele ano. Com 15 etapas, decidiu-se que apenas oito resultados valeriam para o Mundial de Pilotos.

Assim, praticamente metade dos resultados seriam descartados, gerando um campeonato completamente diferente. Das sete primeiras corridas, três seriam ignoradas. Das oito seguintes, quatro não valiam. Tal excesso de descartes terminou por gerar situações insólitas, como o ocorrido com Carlos Reutemann. O argentino da Lotus precisou descontar um quarto e um quinto lugares, obtidos na Bélgica e na África do Sul, na primeira metade do ano, tudo porque pontuou seis vezes num período em que somente quatro resultados eram válidos. Na segunda parte da temporada, Reutemann foi mal e não marcou um ponto sequer mas, ainda assim, teve aqueles cinco pontos descontados no final.

Foi tal regra que encerrou qualquer possibilidade dos pilotos da Williams brigarem pelo título mundial, ainda que tenham dominado absolutamente a segunda metade do ano. Mesmo que Alan Jones tivesse ganho as oito corridas, chegando a 72 pontos (a vitória na época valia 9), somaria somente 36. Um número muito baixo para poder brigar pelo campeonato. Tendo somado apenas seis pontos com Regazzoni e quatro com Jones na primeira metade do ano, a Williams estava precocemente alijada da disputa.

A arrancada de Scheckter

E foi justamente essa regra que direcionou logo cedo o título de 1979 para Jody Scheckter. Na primeira metade da temporada, o sul-africano conquistou duas vitórias e dois segundos lugares, totalizando 30 pontos em 36 possíveis. Ele chegou inclusive a descartar um sexto no Brasil e um quarto na Espanha.

Gilles Villeneuve somou apenas 20 pontos, com duas vitórias e um quinto. Dessa forma, ele partia para as últimas oito corridas do ano com a missão de descontar uma diferença de 10 pontos, sendo que havia apenas 36 em jogo e seu adversário ainda poderia jogar fora metade dos resultados que ainda estavam por vir. Assim, o título do canadense já estava severamente comprometido. Bastava a Scheckter uma vitória e três segundos lugares em oito corridas para eliminar Villeneuve da disputa. Um cenário bastante confortável.

O episódio do GP da Itália

Quando a corrida de Monza chegou, o título já estava praticamente nas mãos de Jody Scheckter. O sul-africano já estava com mais 14 pontos somados (um segundo, dois quartos e um quinto), enquanto que Villeneuve tinha somado apenas mais 12 (dois segundos). No total, Scheckter já tinha 44 pontos garantidos, enquanto que o canadense não poderia mais ir além de 53, ainda que vencesse tudo até o final. Ou seja, Jody precisava abrir apenas mais nove pontos (uma vitória) em três corridas para dar a fatura como liquidada.

Assim, houve uma espécie de consenso dentro da Ferrari de que seria adequado encerrar a disputa do campeonato em Monza. As chances de Villeneuve eram remotas, para não dizer praticamente inexistentes. Era a última corrida na Europa e levar uma disputa de título para as etapas finais no Canadá e nos Estados Unidos traria custos e riscos adicionais. Oficialmente, a Ferrari não fez nenhum trato aberto com os pilotos, sabe-se apenas que o Comendador Enzo direcionou conselhos a Gilles Villeneuve. E aqui vale um registro de que o relacionamento entre ambos não era apenas profissional e frio, não era um negócio como hoje em dia. Enzo e Gilles nutriam uma admiração mútua e tinham uma relação respeitosa, quase que de pai e filho. Assim, é possível imaginar um conselho do tipo: “Gilles, Scheckter será campeão hoje. E o ano que vem será seu.”

E assim quase foi. Villeneuve fez a sua parte e somente acompanhou Scheckter durante a corrida. Aliás, diferente do que costumeiramente é dito, Gilles apenas não o ultrapassassou, não houve uma cessão de posição patética, como ocorreria mais de vinte anos depois entre Barrichello e Schumacher. O sul-africano dominou praticamente a corrida toda e foi comboiado por seu companheiro de equipe, que não rebaixou-se ao humilhante papel de entregar uma vitória na última curva. Foi um acordo tácito entre cavalheiros, sem que ninguém hesitasse em fazer o que achava correto, cada um bastante ciente de seu papel dentro da equipe naquele momento. Elegante, Gilles ainda foi elogioso após a corrida:

“Não dei nenhum presente a Jody, tentei de tudo e tenho que dizer que Jody hoje esteve intocável”.

Retrato de outros tempos. Mas o final não é de todo feliz. Diferentemente do que a Ferrari imaginava, o campeonato de 1980 foi um desastre e Scheckter não teve nenhuma chance de retribuir a gentileza de Villeneuve. Foi a pior temporada da história da equipe, que não fez nenhum pódio e marcou apenas oito pontos, terminando o Mundial de Construtores num humilhante 10º lugar.

Scheckter aposentou-se, Gilles seguiu na Ferrari e virou ídolo por atuações tão emocionantes quanto irregulares nos anos seguintes. E tornou-se mito ao encontrar a morte nas pistas, nos treinos para o GP da Bélgica de 1982.

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Kimi iguala feito de Fangio e Scheckter


O título mundial de Kimi Raikkonen em 2007 não foi histórico apenas pela virada sensacional que representou. O finlandês fez história também na Ferrari, igualando um feito até então exclusivo a Juan Manuel Fangio e Jody Scheckter. Somente eles tinham, até hoje, sido campeões em seu ano de estréia pela equipe italiana.

Fangio disputou apenas uma temporada pela Ferrari, em 1956, depois de sagrar-se tricampeão pela Mercedes no ano anterior. Com o trágico acidente de Le Mans, em 1955, os alemães se retiraram do automobilismo de competição e o argentino mudou-se para a equipe italiana. A passagem foi curta, mas Fangio venceu três corridas em dez e sagrou-se tetracampeão. No ano seguinte, retornou à Maserati para conquistar seu quinto título mundial.

Jody Scheckter ingressou na Ferrari em 1979, para fazer companhia à promessa Gilles Villeneuve. O sul-africano vinha de boas temporadas na Tyrrell e na Wolf e já tinha deixado de lado a fama de batedor inconseqüente. Começou a temporada obscurecido por Villeneuve mas, tal qual ocorreu com Kimi e Massa este ano, reagiu a partir da sexta corrida e arrancou para o título mundial. Jody permaneceu por mais uma temporada na Ferrari, mas o carro era tão ruim que fez com que passasse a questionar a necessidade de continuar correndo. Para se ter uma idéia, 1980 foi a única temporada da história em que nenhuma Ferrari subiu ao pódio em nenhuma corrida. Ao final do ano, decidiu se aposentar.

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